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Carreira11 março 2026

Construindo a empatia em ambientes médicos de alta pressão

Empatia na UTI fortalece o cuidado médico com comunicação clara, escuta ativa e pequenos gestos que preservam o vínculo com pacientes
Por Juliana Karpinski

Em ambientes médicos de alta pressão, em que o tempo é sempre curto e a vida normalmente está por um fio, pode parecer difícil encontrar espaço para a empatia. Mas é justamente nesses momentos que essa habilidade se torna mais necessária.

Situações como as de uma emergência, uma unidade de terapia intensiva ou uma sala cirúrgica são naturalmente tensas e exigem que as decisões sejam precisas, com o foco quase sempre direcionado à técnica. Nesses locais, ser empático não tem a ver, necessariamente, com discursos longos ou abraços emocionados.

Na maioria das vezes, a empatia começa em gestos simples como chamar o paciente pelo nome, explicar com clareza o que está sendo feito, ouvir o que a família tem a dizer sem interromper. Pequenas atitudes que ajudam a preservar algo que ambientes de alta complexidade, foram estruturados com foco em eficiência operacional, produtividade e métricas de desempenho, frequentemente ameaçam apagar, o vínculo humano no cuidado.

Isso reforça ainda mais o papel da empatia. Ela funciona quase como uma forma silenciosa de resistência clínica, reduzindo a sensação de desumanização do cuidado quando o tempo para escuta é reduzido, ajudando a preservar o sentido humano da prática médica.

Para entender como esse cuidado mais humano se constrói na prática em ambientes de UTI, conversamos com o médico intensivista Yuri Albuquerque e com a médica intensivista pediátrica Renata Carneiro da Cruz. Confira!

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Empatia e técnica, sempre juntas

Na UTI, o tempo corre diferente, há sempre um monitor apitando, uma decisão urgente a ser tomada, um paciente precisando de suporte. Mesmo assim, esse é um dos lugares em que a empatia se revela como uma das ferramentas mais poderosas do cuidado.

“A técnica sustenta a vida; a empatia dá sentido ao cuidado.”

Com essa frase, Dr. Yuri resume bem o que defende: a empatia não é um extra da prática médica, é parte dela. E ela não precisa de grandes atos. Está em atitudes do dia a dia como chamar o paciente pelo nome, explicar de forma clara o que está sendo feito, escutar dúvidas e acolher o sofrimento sem pressa. “Atualizar a família com empatia e transparência também faz parte desse cuidado”, reforça.

Dra. Renata concorda, mas reforça um ponto importante. “A empatia, por si só, não basta. No cuidado ao paciente crítico pediátrico, não basta ter empatia para exercer bem a Medicina.  É necessário um cuidado compassivo, que é um compromisso ativo em diminuir a dor total do paciente, seja ela física, espiritual, psicológica, familiar ou social.”

Para isso, segundo ela, é preciso um olhar individualizado, tentando compreender quem é aquele paciente e aquela família e o que realmente importa para eles naquele momento. E isso vale para além da relação com os pacientes. A UTI só funciona bem quando há integração entre todos os membros da equipe multiprofissional e também com as famílias.

Dra. Renata lembra que o diálogo, o respeito entre todos, a clareza nas informações, o acolhimento das famílias e o comprometimento de cada profissional em cuidar da melhor forma do paciente são a grande receita para construir relações mais humanas dentro da UTI.

“Precisamos esclarecer os passos da investigação diagnóstica e do tratamento. É necessário verificar o que as famílias estão entendendo do quadro de seu filho e que podemos explicar sempre que necessário. Também precisamos aprender a lidar com críticas e utilizá-las de forma construtiva”, explica.

Quando empatia e decisão médica entram em conflito

Como oferecer esse tipo de cuidado quando há conflito entre a empatia e a tomada de decisão médica? O que fazer quando é preciso comunicar más notícias ou discutir limites terapêuticos?

Nem sempre o médico consegue identificar que existe o conflito entre a empatia e a tomada de decisão médica, por isso, Dra. Renata comenta que o primeiro passo é conseguir identificar que ele existe. Depois, separar o que vem do julgamento técnico e o que é puramente empático.

“Vale pedir ajuda a colegas de confiança, relatar o caso e, se for possível, até se afastar da liderança naquele momento.”

Esses momentos exigem maturidade emocional e preparo técnico. Dr. Yuri explica que a empatia não significa dizer o que a família quer ouvir, mas comunicar com respeito e honestidade aquilo que o paciente precisa.

E antes mesmo de iniciar explicações técnicas, é necessário reconhecer emoções difíceis presentes na sala, como medo, angústia ou frustração. Quando essas emoções são reconhecidas, cria-se um ambiente de confiança que facilita a compreensão das informações médicas e reduz conflitos.

Empatia também para quem cuida

Cuidar de quem sofre, dia após dia, também tem um preço. Dra. Renata lembra da chamada “fadiga por empatia” ou “fadiga de compaixão”, um esgotamento físico e emocional que pode afetar quem está sempre envolvido na dor do outro. Por isso, cuidar da saúde emocional de quem trabalha em ambientes de alta pressão é algo que não pode ser deixado de lado.

Ela compartilha o que a ajuda a seguir bem: “cuido da minha saúde mental me nutrindo do amor da minha família, da parceria com toda minha equipe da UTI, com meus pacientes, com suas famílias e outros profissionais que cuidam em conjunto dos meus pacientes no hospital”. Além disso, faz psicoterapia e mantém o hábito de estudar, como forma de se manter atualizada e continuar oferecendo o melhor cuidado possível.

Já o Dr. Yuri organiza os cuidados com saúde emocional em quatro pilares: treino regular para manter o corpo e a mente em movimento, relações saudáveis com a família e amigos, alimentação equilibrada para ter energia e clareza mental, e um propósito claro. “Saber por que faço o que faço me ajuda a manter a empatia mesmo nos dias mais difíceis.”

Empatia na prática e na literatura

Essa visão da clínica sobre o cuidado empático e compassivo nos ambientes de alta complexidade apresentada pela Dra. Renata e pelo Dr. Yuri também vem sendo reforçada na literatura recente. E são conceitos importantes para a medicina porque envolvem a dimensão prática do cuidado humanizado.

Segundo Khan et al. (2025), a comunicação empática fortalece a aliança terapêutica e pode reduzir conflitos entre médicos e pacientes, justamente por ajudar a alinhar expectativas e decisões de cuidado. Curiosamente, a empatia com o paciente também ajuda a proteger o médico contra burnout, contribui para resiliência emocional e favorece a saúde mental do médico.

A publicação de Marsaa e Kalluri (2025) ainda aponta que as relações clínicas mais empáticas nesses ambientes devolvem o sentido e o propósito do trabalho médico, o que também funciona como fator de proteção contra o esgotamento profissional.

Isso acontece porque, em sistemas muitas vezes marcados por pressão assistencial e emocional, burocracia médicas, metas de produtividade e elevadas jornadas de trabalho, a empatia no vínculo humano reforça a relação médico-paciente. E isso é a base da profissão médica e uma das principais fontes de satisfação profissional.

Como destaca Dr. Yuri: “A empatia dá sentido ao cuidado.”

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora médica assistente de Carreira da Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). MBA em Gestão Estratégica pela UFPR.

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