Nos últimos anos tivemos um grande avanço no tratamento da estenose aórtica (EA) com a realização do implante valvar aórtico transcateter (TAVI), porém muitos desses pacientes ainda tem alto risco de internações por insuficiência cardíaca (IC), associada a maior mortalidade.
Os inibidores do SGLT2 (iSGLT2) se mostraram eficazes em reduzir internações por IC em um grande espectro de pacientes de alto risco, sendo recomendados independente da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE). Porém, a evidência não é tão forte para pacientes com IC de causa reversível, como a causada por EA, nem para pacientes muito idosos, a população mais acometida por EA.
Assim, foi feito um estudo para avaliar a eficácia e segurança da dapagliflozina, um iSGLT2, especificamente na população de pacientes com EA submetidos a tratamento com TAVI. O estudo foi apresentado no primeiro dia do congresso do American College of Cardiology (ACC 2025).
Métodos do estudo e população envolvida
Foi estudo realizado em 39 centros da Espanha, randomizado e aberto que teve como objetivo avaliar a efetividade da dapagliflozina na dose de 10mg em pacientes com EA submetidos a TAVI. Os pacientes eram incluídos caso tivesse tido episódio prévio de IC relacionado a EA, incluindo internações por IC ou atendimento em serviço de urgência com necessidade de diurético endovenoso associado a pelo menos uma condição: insuficiência renal moderada, diabetes, FEVE ≤ 40%.
Os pacientes eram randomizados no momento da alta hospitalar após a TAVI para o grupo dapagliflozina 10mg associado a tratamento padrão ou para o grupo tratamento padrão isolado. O desfecho primário consistiu em morte por qualquer causa ou piora da IC (internação ou necessidade de atendimento em serviço de urgência com utilização de diurético endovenoso) e o desfecho secundário era composto por morte por qualquer causa, piora da IC, morte cardiovascular e internação por IC e morte cardiovascular. Os desfechos foram avaliados em 3 e 12 meses.
Resultados
Foram randomizados 1.257 pacientes, sendo 620 para o grupo dapagliflozina e 637 para o grupo tratamento padrão. Os grupos eram semelhantes, exceto por prevalência de doença arterial coronariana (DAC) e níveis médios de NT-proBNP, que eram maiores no grupo dapagliflozina.
A idade média dos pacientes era 82,4 anos, 49,4% eram mulheres, 43,9% tinham diabetes, 17% tinham FEVE ≤ 40% e 88,6% tinham doença renal com taxa de filtração glomerular entre 25 e 75ml/min/1,73m2.
No seguimento, 17% suspenderam a medicação no grupo dapagliflozina e 7% a iniciaram no grupo tratamento padrão. Em um ano a aderência foi maior que 80% nos dois grupos.
O desfecho primário ocorreu em 15% no grupo dapagliflozina e em 20,1% no grupo tratamento padrão, com HR 0,72 (IC95% 0,55-0,95, p = 0,02). Mortalidade foi semelhante entre os grupos e piora da IC ocorreu menos no grupo dapagliflozina, tanto às custas de redução de internações quanto de atendimentos em serviços e urgência com necessidade de furosemida endovenosa.
O grupo dapagliflozina apresentou mais eventos adversos como infecção genital e hipotensão, porém não houve maior ocorrência de infecção de trato urinário, bacteremia, sepse e não houve nenhum caso de cetoacidose diabética.
Comentários e conclusão
Entre os pacientes com EA submetidos a TAVI que tinham alto risco para eventos cardiovasculares, a dapagliflozina levou a redução relativa de 28% no risco do desfecho composto de morte por qualquer causa ou piora de IC comparado ao tratamento padrão.
Isto ocorreu de forma consistente nos subgrupos, independente da presença ou ausência de doença renal, diabetes ou FEVE reduzida. A população deste estudo era uma população mais velha que de estudos prévios com iSGLT2 e confirmaram que a medicação é segura nesse grupo de pacientes e também levou a benefício clínico.
Algumas limitações são que o estudo não foi cego e as taxas de morte e IC foram mais baixas que o esperado inicialmente. Além disso, foi estudo realizado apenas na Espanha, talvez não sendo possível extrapolar os resultados para outras populações. Apesar disso, esses resultados sugerem que a medicação possa ser considerada como tratamento adicional para pacientes com EA submetidos a TAVI com alto risco para IC.
Anote na agenda! Live de resumo do evento dia 31/03, às 20h, com a Afya Cardiopapers!
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.