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Cardiologia25 maio 2026

Angiografia imediata versus tardia após PCR em IAMSSST – COACT trial

Cinecoronariografia após PCR sem supra de ST não melhorou sobrevida em 5 anos no COACT, reforçando estratégia invasiva seletiva.
Por Juliana Avelar

A doença arterial coronariana é a principal causa de parada cardiorrespiratória (PCR) extra-hospitalar, com doença coronariana significativa presente em até 70% dos pacientes. Em pacientes com supradesnivelamento do segmento ST após retorno da circulação espontânea (RCE), a realização imediata de cinecoronariografia e eventual revascularização tornou-se prática consolidada, mesmo na ausência histórica de ensaios clínicos randomizados.

Entretanto, a conduta ideal nos pacientes sem supradesnivelamento do segmento ST sempre foi menos clara. Nesses casos, a etiologia da PCR frequentemente permanece indefinida na fase aguda, podendo envolver causas coronarianas, não coronarianas ou mesmo não cardíacas. Apesar disso, por muitos anos houve tendência de extrapolar a lógica do IAM com supra para esse grupo, levando à realização rotineira de angiografia coronariana imediata na tentativa de melhorar desfechos clínicos. Contudo, o real impacto dessa estratégia permanecia incerto.

O estudo COACT foi o primeiro ensaio clínico randomizado a investigar formalmente o benefício da angiografia coronariana imediata versus estratégia invasiva tardia em pacientes ressuscitados após PCR extra-hospitalar com ritmo inicial chocável e ausência de supradesnivelamento do segmento ST. O estudo original não demonstrou benefício da estratégia imediata em sobrevida em 90 dias, e outros estudos randomizados subsequentes, incluindo pacientes com ritmos chocáveis e não chocáveis, mostraram resultados semelhantes em desfechos de curto prazo. Recentemente, foi publicado o seguimento de 5 anos do COACT, fornecendo dados importantes sobre prognóstico em longo prazo.

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Métodos

O COACT foi um estudo multicêntrico, aberto, que avaliou angiografia coronariana imediata versus tardia em pacientes ressuscitados com sucesso após PCR extra-hospitalar sem supra de ST. Foram elegíveis pacientes inconscientes após RCE com ritmo inicial chocável. Os principais critérios de exclusão incluíam supradesnivelamento do segmento ST no ECG inicial, choque cardiogênico ou causa não coronariana evidente para a parada. Os pacientes foram randomizados em proporção 1:1 para estratégia imediata — definida como realização de cinecoronariografia o mais precocemente possível — ou estratégia tardia, realizada após recuperação neurológica.

Pacientes inicialmente alocados para estratégia tardia poderiam realizar angiografia urgente em caso de deterioração clínica, incluindo choque cardiogênico, arritmias ventriculares recorrentes ou isquemia recorrente. A estratégia de revascularização e o esquema antitrombótico ficaram a critério do médico assistente, embora fosse recomendada ICP nas lesões consideradas instáveis.

Resultados

No seguimento de cinco anos, dados estavam disponíveis para 514 pacientes. As características basais foram bastante semelhantes entre os grupos. A idade média foi de aproximadamente 65 anos, a maioria dos pacientes era do sexo masculino e cerca de um terço apresentava doença coronariana prévia conhecida. A PCR foi testemunhada em aproximadamente 80% dos casos, o tempo mediano até início do suporte básico foi de 2 minutos e o tempo mediano até RCE foi de 15 minutos em ambos os grupos.

Durante a hospitalização índice, praticamente todos os pacientes do grupo imediato foram submetidos à angiografia coronariana (96,9%), comparado a 63,6% no grupo tardio. Cerca de 13% dos pacientes inicialmente alocados para estratégia tardia necessitaram angiografia urgente devido à deterioração hemodinâmica, principalmente por arritmias ventriculares recorrentes, supradesnivelamento subsequente do segmento ST ou choque cardiogênico. A sobrevida em 90 dias nesses pacientes foi semelhante à do grupo tardio global.

Doença arterial coronariana significativa foi encontrada em aproximadamente 65% dos pacientes submetidos à angiografia. Entretanto, lesões instáveis agudas foram relativamente incomuns, ocorrendo em apenas 12,6% a 16,1% dos pacientes, enquanto oclusões trombóticas agudas foram observadas em somente 2,8% versus 8,1%. Isso provavelmente ajuda a explicar a ausência de benefício clínico da estratégia invasiva imediata. A ICP foi realizada com maior frequência no grupo imediato (31,8% versus 23,7%), mas isso não se traduziu em menor necessidade de revascularização tardia durante o seguimento.

Em 5 anos, a sobrevida foi semelhante entre as estratégias: 54,8% no grupo imediato versus 51,8% no grupo tardio, sem diferença estatisticamente significativa. Assim, da mesma forma que já havia sido observado em 90 dias e em 1 ano, o seguimento prolongado também não demonstrou benefício prognóstico da cinecoronariografia imediata rotineira.

Uma análise landmark exploratória sugeriu menor risco de morte tardia no grupo imediato após 90 dias. Contudo, esse achado deve ser interpretado com extrema cautela, pois trata-se de análise pós-hoc, não pré-especificada e sem poder estatístico adequado para conclusões definitivas. Os próprios autores enfatizam que o resultado deve ser considerado gerador de hipótese e possivelmente casual.

Outro achado importante foi que a maior parte dos óbitos ocorreu precocemente, principalmente por lesão neurológica grave. Isso reforça um conceito fundamental na abordagem contemporânea da PCR extra-hospitalar sem supra de ST: em muitos desses pacientes, o prognóstico é muito mais determinado pela extensão do dano neurológico hipóxico-isquêmico do que pela presença de doença coronariana estável subjacente. Consequentemente, uma estratégia invasiva imediata dificilmente modificaria desfechos nesses indivíduos.

As taxas de infarto recorrente, nova revascularização, hospitalização por insuficiência cardíaca e choques apropriados de CDI foram baixas e semelhantes entre os grupos ao longo do seguimento. Esses dados reforçam a segurança da estratégia tardia/seletiva.

Os resultados do COACT são consistentes com os achados dos estudos TOMAHAWK, EMERGE e PEARL, consolidando uma importante mudança de paradigma nas diretrizes contemporâneas. Tanto as diretrizes europeias quanto as americanas deixaram de recomendar angiografia coronariana imediata rotineira em pacientes ressuscitados após PCR sem supradesnivelamento do segmento ST e sem instabilidade hemodinâmica evidente. Nesse contexto, o seguimento de 5 anos do COACT fornece evidência robusta e duradoura de que uma estratégia invasiva seletiva é segura e apropriada.

Os autores destacam, contudo, que ainda permanece um desafio identificar possíveis subgrupos que poderiam se beneficiar de abordagem invasiva precoce. Ferramentas de estratificação clínica, escores prognósticos neurológicos e possivelmente métodos de imagem podem futuramente auxiliar na seleção mais individualizada desses pacientes.

Entre as principais limitações do estudo, destacam-se o fato de o cálculo amostral original ter sido desenvolvido para desfechos de curto prazo, tornando esta análise de longo prazo essencialmente exploratória, além do desenho aberto, que pode ter influenciado condutas médicas. Os resultados também não podem ser extrapolados para pacientes com supradesnivelamento do segmento ST, choque cardiogênico ou instabilidade hemodinâmica significativa. Finalmente, a ausência de dados detalhados sobre intensidade terapêutica ao longo do seguimento impede excluir completamente possíveis diferenças transitórias de tratamento entre os grupos.

Conclusão

O seguimento de 5 anos do COACT consolida o entendimento atual de que a cinecoronariografia imediata rotineira não melhora sobrevida em pacientes ressuscitados após PCR extra-hospitalar sem supradesnivelamento do segmento ST. A estratégia invasiva seletiva mostrou-se segura e alinhada à fisiopatologia predominante desses pacientes, nos quais a lesão neurológica frequentemente exerce papel prognóstico mais relevante do que a própria doença coronariana subjacente.

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

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