Já sabemos que a inflamação desempenha um papel fundamental na patogênese da doença cardiovascular, contribuindo não apenas para o início da aterosclerose, mas também para sua progressão e eventual desestabilização da placa. A colchicina, um agente anti-inflamatório tradicionalmente utilizado no tratamento de gota e pericardite, emergiu recentemente como uma terapia promissora no campo cardiovascular. Ensaios clínicos demonstraram que a colchicina em baixa dose reduz significativamente a incidência de eventos cardiovasculares adversos maiores (MACEs) em pacientes com infarto recente do miocárdio e síndromes coronárias crônicas. Esses benefícios sugerem que a modulação da inflamação vascular pela colchicina contribui para desfechos clínicos melhores.
Mais recentemente, o estudo CLEAR Synergy não conseguiu demonstrar a eficácia da colchicina quando iniciada logo após o infarto do miocárdio.
Foi publicada recentemente no Journal of Internal Medicine uma metanálise que teve como objetivo resumir as evidências existentes conduzindo uma metanálise de ensaios clínicos que avaliaram a eficácia da colchicina na redução de eventos cardiovasculares a médio e longo prazo.
Métodos
Os critérios de inclusão para a metanálise foram: (1) ensaios clínicos randomizados (RCTs) fases II, III ou IV; (2) língua inglesa; (3) comparação do efeito da colchicina versus placebo (a adição do mesmo fármaco aos dois grupos foi considerada aceitável); (4) relato de qualquer tipo de MACE; e (5) duração da intervenção de pelo menos 12 meses.
O desfecho primário desta metanálise foi MACE. Os desfechos secundários incluíram os componentes isolados de MACE: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, morte cardíaca e revascularização coronária.
Resultados
Um total de 21.774 participantes de seis ensaios clínicos randomizados foi incluído. Todos os indivíduos incluídos apresentavam doença cardiovascular crônica ou síndrome coronária aguda, com a maioria (média de 96,2%) recebendo colchicina em adição à terapia com estatina.
Observou-se que a colchicina reduziu significativamente o risco reduz MACE em ~26%, infarto em ~15% e AVC em ~21%, em tratamentos ≥12 meses, mas não influenciou o risco de morte cardíaca nem de revascularização coronária.
Nenhum viés de publicação foi encontrado ao avaliar a assimetria do funil por análise quantitativa. As análises de influência mostraram que não houve impacto relevante nas estimativas agrupadas para MACE e morte cardíaca ao omitir um estudo por vez. Entretanto, a redução do risco de infarto do miocárdio deixou de ser estatisticamente significativa após a exclusão do estudo LoDoCo2. A redução no risco de revascularização se tornou estatisticamente significativa após a exclusão do estudo CLEAR Synergy.

Discussão: Colchicina e eventos cardiovasculares
Essa metanálise confirma que, em pacientes de prevenção secundária ou com alto risco cardiovascular, a adição de colchicina em baixa dose à terapia padrão e o tratamento por pelo menos 12 meses são capazes de reduzir a incidência de desfechos cardiovasculares maiores. Importante ressaltar que essa eficácia foi confirmada independentemente da inclusão do estudo CLEAR Synergy — o maior estudo conduzido até o momento com colchicina nessa população — que, isoladamente, não apresentou resultados estatisticamente significativos.
A interpretação dos resultados do CLEAR Synergy, que teve resultado neutro, permanece desafiadora devido a diversas limitações metodológicas e contextuais. Primeiro, a incidência de infarto do miocárdio e mortalidade por todas as causas era notavelmente maior no período anterior à pandemia, sugerindo que fatores externos podem ter confundido a detecção e o relato de eventos durante o período do ensaio. Além disso, a resposta inflamatória observada pode ter sido insuficiente para que a colchicina exercesse todo o seu potencial terapêutico. No estudo CANTOS, a mediana de PCR ultrassensível caiu de 4,20 mg/L para 1,8 mg/L, indicando que a redução significativa de risco cardiovascular com terapia anti-inflamatória ocorre principalmente em pacientes que atingem níveis de PCR-us abaixo de 2,0 mg/L. Em contraste, no CLEAR Synergy, a colchicina reduziu a PCR-us para 2,98 mg/L.
Os resultados da metanálise podem ser explicados pelo mecanismo anti-inflamatório da colchicina, que se acredita estabilizar placas ateroscleróticas por meio da redução da inflamação vascular local.
Vale destacar que a heterogeneidade entre os poucos estudos disponíveis — especialmente quanto às características populacionais, SCA X DAC crônica, duração do tratamento e definições específicas de MACE — pode afetar a consistência dos resultados. Essa limitação é amplificada pelo pequeno número de ensaios e, portanto, os achados precisarão ser confirmados conforme novos estudos estiverem disponíveis e análises de subgrupos mais robustas puderem ser realizadas.
Conclusão
A evidência deste estudo reforça o uso da colchicina em pacientes com doença aterosclerótica estável como terapia adjuvante às terapias padrão, conforme já destacado pelas recomendações da FDA e pelas diretrizes recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia. Na diretriz brasileira de DAC crônica de 2025, a colchicina recebeu classe de recomendação IIb para redução de eventos recorrentes especialmente no caso de risco residual inflamatório. Dados limitados sobre segurança em longo prazo e modulação inflamatória ideal com colchicina exigem investigações adicionais.
Autoria

Juliana Avelar
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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