Um dos destaques da edição de 2026 do congresso da European Society of Cardiology (ESC 2026) foi o estudo ENRICH-AF. Ele avaliou uma população de difícil manejo: pacientes com fibrilação atrial, alto risco tromboembólico e histórico de hemorragia intracraniana.
Essa população é frequentemente excluída dos grandes estudos com anticoagulantes orais, justamente pelo desafio de equilibrar prevenção de AVC isquêmico e risco de novo sangramento intracraniano.
Segundo a ESC, a estratégia ideal para prevenção de AVC isquêmico em pacientes com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia ainda é incerta, pois esses pacientes foram historicamente excluídos dos principais estudos de anticoagulação oral.
Como foi conduzido o estudo?
O ENRICH-AF foi um estudo internacional, prospectivo, randomizado, aberto e com avaliação cega de desfechos.
O estudo comparou edoxabana com terapia médica sem anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial de alto risco e hemorragia intracraniana prévia.
O registro do estudo descreve o ENRICH-AF como um ensaio PROBE, isto é, prospectivo, randomizado, aberto e com desfechos cegos, desenhado para avaliar edoxabana 60 mg ou 30 mg ao dia versus terapia médica não anticoagulante, que poderia incluir ausência de antitrombótico ou monoterapia antiplaquetária.
Qual foi o desfecho avaliado?
O desfecho avaliado foi AVC ou embolia sistêmica.
A proposta era verificar se a edoxabana reduziria eventos tromboembólicos nessa população de alto risco, sem gerar aumento inaceitável de sangramento.
Quais foram os principais resultados?
Os resultados mostraram que a edoxabana não reduziu o risco de AVC ou embolia sistêmica em comparação à não anticoagulação.
Além disso, houve aumento de sangramento maior entre os pacientes tratados com edoxabana.
O estudo também apontou risco inaceitavelmente alto de recorrência de sangramento em pacientes com sangramento em alguns locais específicos.
Como interpretar os achados?
O ENRICH-AF não deve ser interpretado como uma resposta simples contra toda anticoagulação após hemorragia intracraniana.
O estudo mostra que, nessa população de alto risco e com a estratégia testada, a edoxabana não trouxe redução significativa de AVC ou embolia sistêmica e aumentou sangramento maior.
Isso reforça que a decisão de anticoagular pacientes com fibrilação atrial após hemorragia intracraniana deve ser altamente individualizada.
Fatores como localização e causa da hemorragia, tempo desde o evento, risco tromboembólico, risco de recorrência de sangramento, idade, fragilidade, controle pressórico, neuroimagem, função renal, uso de antiagregantes e alternativas não farmacológicas devem ser considerados.
Mensagem prática
Em pacientes com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia, o ENRICH-AF mostrou que a edoxabana não reduziu AVC ou embolia sistêmica em comparação à não anticoagulação.
Além disso, houve aumento de sangramento maior, com sinal de risco particularmente preocupante em determinados locais de sangramento.
Na prática, o estudo reforça que a anticoagulação nessa população não deve ser automática. A decisão deve ser individualizada e, idealmente, discutida de forma multidisciplinar, envolvendo cardiologia, neurologia e, quando necessário, neurocirurgia.
Os resultados também apontam para a necessidade de novas estratégias de prevenção de AVC, incluindo seleção mais refinada de pacientes, avaliação de dose, controle agressivo de fatores de risco e alternativas como oclusão de apêndice atrial esquerdo em casos selecionados.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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