No congresso de 2026 de Cardiologia da Sociedade Europeia de Cardiologia foi publicada uma diretriz de reabilitação cardíaca, cada vez mais necessária para os pacientes e atualmente considerada um serviço essencial para melhorar prognóstico, funcionalidade, qualidade de vida e para reduzir mortalidade em diversas doenças cardiovasculares (DCV).

Principais pontos abordados pela diretriz
A reabilitação cardíaca é um processo multimodal centrado no paciente e tem mostrado contribuir com a melhora dos desfechos de saúde e prognóstico do paciente com doenças crônicas. Ela tem como objetivo melhorar o funcionamento físico e mental, qualidade de vida e desfechos clínicos.
A reabilitação cardíaca deve ser integrada ao cuidado contínuo e é dividida em fases: pré habilitação (fase 0); cuidado agudo ou hospitalar (fase I); fase pós-aguda ambulatorial ou domiciliar (fase II); e cuidado de longo prazo e promoção de saúde (fase III). Essas fases são interconectadas no contexto das doenças crônicas.
O objetivo da diretriz é ser um guia em relação as indicações de reabilitação cardíaca e o manejo dos pacientes em programas de fase II.
Perspectivas do paciente
A efetividade da reabilitação cardíaca não depende apenas dos médicos e componentes psicossociais do programa, mas também do entendimento da perspectiva e das necessidades e expectativas do paciente. Entender as prioridades individuais melhora a satisfação e permite que os desfechos sejam sustentáveis no longo prazo.
Quem tem indicação para reabilitação?
Os pacientes com indicação de reabilitação são os que tem insuficiência cardíaca (IC) aguda ou crônica, pacientes com dispositivos de assistência ventricular, transplantados, com doença valvar, cardiopatias congênitas, cardiomiopatias, dispositivos eletrônicos implantáveis, pacientes com câncer submetidos a tratamento cardiotóxico e pacientes frágeis ou com múltiplas comorbidades.
Como deve ser feita a reabilitação?
Os programas devem ser multidisciplinares, envolvendo cardiologistas, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos, educadores físicos e outros. Para garantir a qualidade dos centros de reabilitação existem padrões de qualidade estabelecidos em relação a infraestrutura, equipe multidisciplinar e centro de reabilitação.
A realização de reabilitação em centros especializados ou de forma supervisionada em casa tem se mostrado segura para pacientes com doença cardíaca e deve ser iniciada o mais precoce possível após um evento, intervenção ou cirurgia para a maioria dos pacientes. A ocorrência de eventos adversos graves associados a exercício é muito baixa para exercícios supervisionados remotamente (1 para 53.770 pacientes-hora).
O tempo para início no hospital varia: para pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) deve ser de até 14 dias; após uma cirurgia de revascularização miocárdica o tempo ideal é de até 28 dias; já pacientes com IC devem iniciar assim que estiverem estáveis hemodinamicamente e sem congestão. Atenção deve ser dada a possíveis contraindicações, que variam a depender de cada patologia.
A avaliação do paciente deve ser abrangente, com avaliação de capacidade funcional, sintomas, risco cardiovascular, fatores psicossociais e devem ser estabelecidas as metas individuais.
É essencial avaliar as comorbidades relevantes e disfunções além do evento cardíaco índice, assim como otimizar a terapia medicamentosa guiada por guidelines. Geralmente realizam-se exames complementares como eletrocardiograma e ecocardiograma e o teste de esforço cardiopulmonar é o padrão ouro para estratificar o risco do paciente, avaliar função global e identificar limites de tolerância ao exercício.
É importante ter comunicação clara e o uso de componentes da saúde digital e educação do paciente auxiliam bastante, assim como estratégias de motivação, definição de metas claras e acompanhamento contínuo. Deve-se também realizar revisão e ajuste de terapias conforme as diretrizes de prevenção secundária e a prescrição de atividade física e exercício deve ser individualizada de acordo com testes funcionais dos pacientes.
No geral indica-se atividade aeróbica (pelo menos 150 a 300 minutos por semana de atividade moderada a intensa ou 75 a 150 minutos por semana de atividade vigorosa) e de resistência (pelo menos 2 vezes por semana de atividade moderada a intensa com envolvimento de todos os grupos musculares maiores).
Também se indica atividade física com multicomponentes pelo menos 3 vezes por semana, que compreendem atividade física com ênfase em equilíbrio e treino de força de atividade moderada a intensa. Além disso, é importante limitar o tempo de sedentarismo.
Os exercícios recomendados devem ser individualizados e personalizados de acordo com a DCV dos pacientes, a depender se apresenta IAM, doença coronária estável ou IC, seu fenótipo em relação a status funcional, fatores de risco cardiovasculares, fragilidade, comorbidades e presença de câncer, além de suas expectativas e barreiras para o programa.
Os pacientes devem ter dieta saudável, manejo da obesidade e sarcopenia se presentes, devem parar de fumar e passar por avaliação e tratamento de ansiedade, depressão, estresse e adaptação emocional. Caso indicado, também pode-se realizar intervenções especificas para reinserção no trabalho.
A tecnologia pode ser grande aliada, com a utilização de tele reabilitação, monitorização remota, utilização de aplicativos e wereables, além da inteligência artificial para suporte clínico.
A diretriz detalha ainda os benefícios, desafios e critérios de seleção para pacientes para reabilitação cardíaca presencial, domiciliar ou híbrida.
Mensagem prática
Essa diretriz enfatiza a importância da perspectiva do paciente, com grande foco nos desfechos relatados e experiência do paciente, reforça que a reabilitação é eficaz, segura e custo-efetiva e deve ser oferecida sistematicamente a todos os grupos elegíveis.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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