No último congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, foi publicada a Quinta Definição Universal do Infarto, uma atualização do documento de 2018, com mudanças significativas.
A nova definição foi desenvolvida em conjunto pela European Society of Cardiology, American College of Cardiology, American Heart Association e World Heart Federation.
Entre os principais pontos, o documento atualiza a classificação do infarto, reforça critérios objetivos para diagnóstico, incorpora limiares de troponina específicos por sexo e propõe uma abordagem mais alinhada à fisiopatologia e à avaliação clínica do paciente.
Como o IAM é definido?
O infarto agudo do miocárdio (IAM) é definido como morte celular decorrente de períodos prolongados de isquemia, causada por fluxo coronariano ausente ou insuficiente e por lesão de reperfusão.
Na prática, o diagnóstico clínico exige evidência de injúria miocárdica aguda associada a evidência de isquemia miocárdica aguda.
Quais são os critérios diagnósticos?
A injúria miocárdica aguda é definida por aumento ou queda da troponina I ou T, com pelo menos um valor acima do percentil 99.
Para configurar IAM, esse achado deve estar associado a pelo menos um dos seguintes critérios:
- sintomas ou outra evidência de isquemia miocárdica aguda;
- alteração isquêmica nova no eletrocardiograma;
- ondas Q patológicas no eletrocardiograma;
- evidência de lesão coronária aguda por imagem;
- perda de miocárdio viável ou alteração segmentar nova de padrão isquêmico.
A diretriz também reforça o papel das alterações eletrocardiográficas, dos biomarcadores — especialmente as troponinas — e dos exames complementares na avaliação dos pacientes com suspeita de IAM.
Como ficou a nova classificação do IAM?
Uma das principais mudanças é que a classificação do IAM deixa de ser dividida em tipos 1 a 5.
Agora, o IAM passa a ser classificado em três grupos clínicos:
- IAM primário;
- IAM secundário;
- IAM relacionado a procedimento.
Essa mudança busca refletir melhor a fisiopatologia subjacente, alinhar a classificação à avaliação clínica e facilitar a aplicação consistente na prática.
O que é IAM primário?
O IAM primário corresponde à apresentação espontânea devido à aterotrombose ou a outra patologia que acomete a artéria coronária.
Entre os exemplos estão:
- dissecção espontânea de coronária;
- embolia coronária;
- vasoespasmo;
- reestenose;
- trombose de stent;
- falha de enxerto após 30 dias do procedimento.
Essa categoria substitui, de forma mais intuitiva, parte da classificação anterior baseada em tipos numéricos.
O que é IAM secundário?
O IAM secundário ocorre como consequência de desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio por uma condição aguda, associado a doença coronária obstrutiva, mas sem evento coronariano agudo.
Também pode resultar em novo acometimento ventricular, com alteração segmentar ou alteração de viabilidade.
Essa definição ajuda a separar situações em que há injúria isquêmica por desbalanço hemodinâmico ou metabólico daquelas em que há evento coronário primário.
O que é IAM relacionado a procedimento?
O IAM relacionado a procedimento é aquele decorrente de complicação de angioplastia ou cirurgia de revascularização miocárdica.
A nova definição contempla obstrução do stent ou da ponte até 30 dias após o procedimento.
Essa categoria concentra os eventos periprocedimento de forma mais diretamente ligada à intervenção realizada.
O que muda na morte súbita?
Outra mudança relevante envolve o diagnóstico de IAM em pacientes com morte súbita.
Quando o paciente não foi avaliado antes do óbito, pode-se considerar IAM se houver elementos clínicos compatíveis, como:
- idade acima de 40 anos;
- dor torácica ou equivalente anginoso precedendo a morte;
- história de doença coronária;
- fibrilação ventricular na ausência de cardiomiopatias ou canalopatias.
Caso o paciente não apresente essas características, deve ser considerada outra causa para a morte.
Se o paciente foi avaliado antes de evoluir para morte súbita, pode-se considerar IAM quando houver sintomas de isquemia aguda, alterações de ST ou alteração segmentar nova em exame de imagem.
O que mudou no conceito de MINOCA?
Outra grande mudança foi a definição de MINOCA.
Antes, o acrônimo era usado para “infarto agudo do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas”.
Agora, passa a significar injúria miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas.
O termo deve ser aplicado a pacientes com características de IAM que não apresentam doença coronária obstrutiva, definida por obstruções ≥ 50% na coronariografia.
Essa mudança ocorreu porque muitos pacientes previamente classificados como MINOCA tinham diagnósticos finais não relacionados a coronariopatias, como miocardite ou síndrome de Takotsubo.
Como interpretar essas mudanças?
A nova definição torna a classificação do IAM mais próxima da prática clínica.
Em vez de organizar os casos em tipos numéricos, o documento propõe uma divisão baseada na etiologia e na fisiopatologia: evento coronário primário, desequilíbrio oferta-consumo ou complicação relacionada a procedimento.
Essa mudança pode facilitar o raciocínio diagnóstico, a comunicação entre equipes e a codificação dos casos.
Mensagem prática
A Quinta Definição Universal do Infarto atualiza conceitos centrais para o diagnóstico e a classificação do IAM.
Na prática, o diagnóstico continua exigindo injúria miocárdica aguda, demonstrada por aumento ou queda de troponina com pelo menos um valor acima do percentil 99, associada a evidência de isquemia miocárdica.
A principal mudança está na nova classificação: o IAM deixa de ser dividido em tipos 1 a 5 e passa a ser organizado em IAM primário, IAM secundário e IAM relacionado a procedimento.
O conceito de MINOCA também foi atualizado e passa a representar injúria miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas, evitando enquadrar automaticamente como infarto casos cujo diagnóstico final pode ser miocardite, Takotsubo ou outras condições.
A diretriz ficou mais intuitiva e com definições mais alinhadas ao raciocínio usado na prática clínica.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.