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Cardiologia1 setembro 2026

ESC 2026: Quinta definição universal do infarto - o que mudou?

Nova definição universal do infarto atualiza critérios diagnósticos, classificação do IAM e conceito de MINOCA.
Por Isabela Abud Manta

No último congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, foi publicada a Quinta Definição Universal do Infarto, uma atualização do documento de 2018, com mudanças significativas.

A nova definição foi desenvolvida em conjunto pela European Society of Cardiology, American College of Cardiology, American Heart Association e World Heart Federation.

Entre os principais pontos, o documento atualiza a classificação do infarto, reforça critérios objetivos para diagnóstico, incorpora limiares de troponina específicos por sexo e propõe uma abordagem mais alinhada à fisiopatologia e à avaliação clínica do paciente.

Como o IAM é definido?

O infarto agudo do miocárdio (IAM) é definido como morte celular decorrente de períodos prolongados de isquemia, causada por fluxo coronariano ausente ou insuficiente e por lesão de reperfusão.

Na prática, o diagnóstico clínico exige evidência de injúria miocárdica aguda associada a evidência de isquemia miocárdica aguda.

Quais são os critérios diagnósticos?

A injúria miocárdica aguda é definida por aumento ou queda da troponina I ou T, com pelo menos um valor acima do percentil 99.

Para configurar IAM, esse achado deve estar associado a pelo menos um dos seguintes critérios:

  • sintomas ou outra evidência de isquemia miocárdica aguda;
  • alteração isquêmica nova no eletrocardiograma;
  • ondas Q patológicas no eletrocardiograma;
  • evidência de lesão coronária aguda por imagem;
  • perda de miocárdio viável ou alteração segmentar nova de padrão isquêmico.

A diretriz também reforça o papel das alterações eletrocardiográficas, dos biomarcadores — especialmente as troponinas — e dos exames complementares na avaliação dos pacientes com suspeita de IAM.

Como ficou a nova classificação do IAM?

Uma das principais mudanças é que a classificação do IAM deixa de ser dividida em tipos 1 a 5.

Agora, o IAM passa a ser classificado em três grupos clínicos:

  • IAM primário;
  • IAM secundário;
  • IAM relacionado a procedimento.

Essa mudança busca refletir melhor a fisiopatologia subjacente, alinhar a classificação à avaliação clínica e facilitar a aplicação consistente na prática.

O que é IAM primário?

O IAM primário corresponde à apresentação espontânea devido à aterotrombose ou a outra patologia que acomete a artéria coronária.

Entre os exemplos estão:

  • dissecção espontânea de coronária;
  • embolia coronária;
  • vasoespasmo;
  • reestenose;
  • trombose de stent;
  • falha de enxerto após 30 dias do procedimento.

Essa categoria substitui, de forma mais intuitiva, parte da classificação anterior baseada em tipos numéricos.

O que é IAM secundário?

O IAM secundário ocorre como consequência de desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio por uma condição aguda, associado a doença coronária obstrutiva, mas sem evento coronariano agudo.

Também pode resultar em novo acometimento ventricular, com alteração segmentar ou alteração de viabilidade.

Essa definição ajuda a separar situações em que há injúria isquêmica por desbalanço hemodinâmico ou metabólico daquelas em que há evento coronário primário.

O que é IAM relacionado a procedimento?

O IAM relacionado a procedimento é aquele decorrente de complicação de angioplastia ou cirurgia de revascularização miocárdica.

A nova definição contempla obstrução do stent ou da ponte até 30 dias após o procedimento.

Essa categoria concentra os eventos periprocedimento de forma mais diretamente ligada à intervenção realizada.

O que muda na morte súbita?

Outra mudança relevante envolve o diagnóstico de IAM em pacientes com morte súbita.

Quando o paciente não foi avaliado antes do óbito, pode-se considerar IAM se houver elementos clínicos compatíveis, como:

  • idade acima de 40 anos;
  • dor torácica ou equivalente anginoso precedendo a morte;
  • história de doença coronária;
  • fibrilação ventricular na ausência de cardiomiopatias ou canalopatias.

Caso o paciente não apresente essas características, deve ser considerada outra causa para a morte.

Se o paciente foi avaliado antes de evoluir para morte súbita, pode-se considerar IAM quando houver sintomas de isquemia aguda, alterações de ST ou alteração segmentar nova em exame de imagem.

O que mudou no conceito de MINOCA?

Outra grande mudança foi a definição de MINOCA.

Antes, o acrônimo era usado para “infarto agudo do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas”.

Agora, passa a significar injúria miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas.

O termo deve ser aplicado a pacientes com características de IAM que não apresentam doença coronária obstrutiva, definida por obstruções ≥ 50% na coronariografia.

Essa mudança ocorreu porque muitos pacientes previamente classificados como MINOCA tinham diagnósticos finais não relacionados a coronariopatias, como miocardite ou síndrome de Takotsubo.

Como interpretar essas mudanças?

A nova definição torna a classificação do IAM mais próxima da prática clínica.

Em vez de organizar os casos em tipos numéricos, o documento propõe uma divisão baseada na etiologia e na fisiopatologia: evento coronário primário, desequilíbrio oferta-consumo ou complicação relacionada a procedimento.

Essa mudança pode facilitar o raciocínio diagnóstico, a comunicação entre equipes e a codificação dos casos.

Mensagem prática

A Quinta Definição Universal do Infarto atualiza conceitos centrais para o diagnóstico e a classificação do IAM.

Na prática, o diagnóstico continua exigindo injúria miocárdica aguda, demonstrada por aumento ou queda de troponina com pelo menos um valor acima do percentil 99, associada a evidência de isquemia miocárdica.

A principal mudança está na nova classificação: o IAM deixa de ser dividido em tipos 1 a 5 e passa a ser organizado em IAM primário, IAM secundário e IAM relacionado a procedimento.

O conceito de MINOCA também foi atualizado e passa a representar injúria miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas, evitando enquadrar automaticamente como infarto casos cujo diagnóstico final pode ser miocardite, Takotsubo ou outras condições.

A diretriz ficou mais intuitiva e com definições mais alinhadas ao raciocínio usado na prática clínica.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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