A fibrilação atrial (FA) é a arritmia mais encontrada no mundo, e sua incidência e prevalência seguem em aumento.1 Uma das complicações mais temidas é a ocorrência de eventos tromboembólicos, sendo o mais grave o acidente vascular cerebral (AVC). Pacientes com FA tem risco 2,4 vezes maior de apresentar esse evento.2
Já é bem estabelecido que a utilização de anticoagulantes diminui o risco de tromboembolismo, e os antagonistas da vitamina K (AVK), representados pela varfarina, foram a primeira classe deles a ser usada.3
Nas últimas décadas, surgiram os anticoagulantes orais diretos (DOACs, do inglês direct oral anticoagulants), que trouxeram grande mudança para a prática clínica e são representados por apixabana, dabigatrana, edoxabana e rivaroxabana. A dabigatrana é um inibidor direto da trombina e os outros três são inibidores do fator Xa.1 Os DOACs foram avaliados em relação à eficácia e à segurança em grandes estudos randomizados e controlados: o RE-LY4 avaliou a dabigatrana, o ROCKET-AF5 a rivaroxabana, o ARISTOTLE6 a apixabana e o ENGAGE-AF TIMI 487 a edoxabana.
A classe dos DOACs tem vantagens como: efeito mais previsível, início de ação mais rápido e menor interação medicamentosa. Os resultados dos estudos iniciais mostraram eficácia semelhante ou maior que a da varfarina e que a medicação é segura.4-7
Assim, passaram a ser recomendados como primeira escolha na prevenção de eventos tromboembólicos em pacientes com FA não valvar pelas principais diretrizes.1,8,9 Pacientes com maior benefício são os que têm alto risco de eventos pelo escore CHA2DS2-VASc e baixo risco de sangramento.1
Não existe um DOAC preferível a outro, já que não há estudos randomizados que fizeram comparações diretas entre eles. Nessa situação, estudos de mundo real, observacionais, podem auxiliar, fornecendo dados sobre a eficácia e a segurança da medicação quando extrapolada para a população geral.10-13
Um grande estudo italiano de 2023 avaliou mais de 170 mil pacientes com diagnóstico de FA não valvar entre 2015 e 2018. Do total deles, 14,2% receberam DOAC, 46,9% AVK,14,3% aspirina e o restante não recebeu medicamento anticoagulante. Como esperado, a maior taxa de ocorrência de AVC e embolia sistêmica ocorreu nos pacientes que não receberam anticoagulação.10
Um estudo de 2022 avaliou especificamente a edoxabana em comparação aos outros anticoagulantes orais. Trata-se de estudo de coorte que mostrou que a ocorrência de AVC isquêmico e outros eventos embólicos foram menores no grupo que usou edoxabana quando comparado aos outros grupos. Edoxabana mostrou também menos sangramento maior comparado a rivaroxabana e AVK.11
Recentemente foram publicados dois registros de mundo real com pacientes em uso de edoxabana, um europeu, o ETNA-AF-Europe13, e um brasileiro, o EdoBRA.14 O primeiro é o maior estudo com um DOAC e, como estudo de mundo real, foi observacional e prospectivo. Incluiu pacientes da Europa e o objetivo foi relatar a segurança e efetividade da medicação no longo prazo.13
Foram realizadas comparações entre as doses de 60 mg e 30 mg (esta segunda indicada para pacientes com clearance de creatinina entre 15 e 50 mL/min, peso ≤ 60 Kg ou uso concomitante de inibidores da glicoproteína-P) e entre os pacientes com diferentes riscos tromboembólicos, de acordo com o CHA2DS2-VASc.13
A idade média dos pacientes no início era 75 anos, o peso de 80 Kg, o CHA2DS2-VASc médio 3 e o seguimento médio foi de 4 anos. Pacientes que receberam edoxabana na dose de 30 mg tinham CHA2DS2-VASc maior (4,0 x 3,0), eram mais velhos (80 x 73 anos), com menor peso (71 x 81 Kg) e tinham maior chance de fragilidade e mais comorbidades. Pacientes com CHA2DS2-VASc > 4 eram mais frágeis e tinham mais comorbidades que os com escore menores.13
Comparado ao ENGAGE AF-TIMI 48, os pacientes eram mais velhos, porém tinham CHA2DS2-VASc menor e menor prevalência de comorbidades como hipertensão e diabetes.13
Já o registro brasileiro, com o mesmo objetivo, incluiu 700 pacientes, e os resultados preliminares apresentados mostraram dados de 590 pacientes de 30 centros, com idade média de 70 anos e CHA2DS2-VASc médio de 3. Do total, 78% tinham hipertensão, 41% tinham dislipidemia, 30% diabetes e 28% insuficiência cardíaca, o que nos mostra um grupo com comorbidades importantes.14
No registro europeu, as taxas de mortalidade por todas as causas e por causas cardiovasculares foram de 4,1% e 1,0%, constantes ao longo do seguimento e proporcionalmente foram maiores nos pacientes que receberam dose de 30 mg comparado a 60mg.13
As taxas de AVC, acidente isquêmico transitório (AIT) e embolia sistêmica foram menores que 1%. Já a ocorrência de qualquer sangramento, sangramento maior, sangramento intracraniano e sangramento gastrointestinal foram respectivamente de 2,9%, 0,8%, 0,2% e 1%.13 Os resultados do registro brasileiro foram do seguimento de um ano e mostraram taxa de AVC de 0,68% e de sangramento de 2,2%.14
Esses resultados mostram que a utilização da edoxabana na prática clínica é segura e eficaz, com taxas muito baixas de morte, AVC e sangramento maior ou intracraniano, mesmo com o envelhecimento dos pacientes ao longo do seguimento mais prolongado do registro europeu.13,14
Como vimos, tivemos grande avanço na prevenção do AVC e de outros eventos embólicos em pacientes com FA não valvar. Além disso, a utilização dos DOACs é eficaz e segura, e alguns estudos mostram a superioridade na eficácia de edoxabana versus demais DOACs,11 embora mais estudos comparativos sejam necessários.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.
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