Os agonistas do receptor de GLP-1 tornaram-se, nos últimos anos, uma das classes terapêuticas mais relevantes no manejo do diabetes e da obesidade. Inicialmente incorporados ao tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos passaram progressivamente a ocupar um papel central no controle do peso corporal, sobretudo após a introdução da semaglutida em doses específicas para obesidade. Esse movimento rapidamente extrapolou o contexto clássico de indicação metabólica e passou a alcançar fases específicas do ciclo reprodutivo feminino, incluindo o período pós-parto.
O pós-parto representa uma fase de transição fisiológica complexa, marcada por profundas alterações hormonais, metabólicas e comportamentais. Trata-se também de um período no qual ocorre, fisiologicamente, uma perda ponderal espontânea, ainda que de magnitude e duração variáveis. Nesse cenário, o uso de medicamentos voltados à redução de peso levanta questões relevantes, sobretudo quando se considera a escassez de dados sobre segurança materna, impacto sobre a lactação e possíveis efeitos em curto e longo prazo sobre a criança exposta.
Apesar dessas incertezas, a percepção clínica é de que o uso de agonistas do GLP-1 no período pós-parto vem aumentando de forma expressiva. Um estudo publicado recentemente no JAMA buscou quantificar esse fenômeno de maneira objetiva, utilizando dados populacionais abrangentes da Dinamarca, com o objetivo de descrever a evolução temporal do uso desses medicamentos nos primeiros meses após o parto e caracterizar o perfil das mulheres expostas.
O ESTUDO
O estudo foi observacional, populacional, baseado na vinculação de registros nacionais dinamarqueses. Os autores utilizaram o Danish Medical Birth Register para identificar todos os nascimentos vivos ocorridos entre 1º de janeiro de 2018 e 30 de junho de 2024. Esses dados foram vinculados ao National Prescription Registry por meio do identificador pessoal único utilizado em todo o sistema de saúde da Dinamarca, permitindo rastrear prescrições de medicamentos em nível individual.
Foram incluídas todas as mulheres que preencheram ao menos uma prescrição de agonista do receptor de GLP-1 entre o dia do parto e 182 dias após o nascimento. No sistema dinamarquês, esses medicamentos são indicados formalmente para indivíduos com obesidade (IMC ≥30 kg/m²) ou sobrepeso associado a comorbidades (IMC ≥27 kg/m²), o que fornece um contexto regulatório relativamente homogêneo para a interpretação dos dados.
O denominador utilizado para os cálculos foi o número total de partos em cada trimestre do período estudado. As análises descreveram a evolução temporal do uso, bem como as características das usuárias segundo idade, paridade, IMC pré-gestacional, histórico de diabetes, uso prévio de agonistas de GLP-1 e tipo específico de medicamento prescrito, permitindo inferir a provável indicação clínica.
HÁ UM CRESCIMENTO PROGRESSIVO NO USO DE AGONISTAS DE GLP-1 NO PERÍODO PÓS PARTO, DE ACORDO COM O ESTUDO DINAMARQUÊS
Entre 2018 e meados de 2024, foram registradas 382.277 gestações com nascidos vivos na Dinamarca. Dentre essas, 1.549 mulheres preencheram ao menos uma prescrição de agonista do receptor de GLP-1 nos primeiros 182 dias após o parto. No início do período analisado, o uso era praticamente inexistente, com menos de cinco usuárias identificadas.
A partir de 2022, observa-se um crescimento progressivo, inicialmente modesto, alcançando cerca de 34 usuárias por 10.000 partos no segundo trimestre daquele ano. Em seguida, ocorre uma inflexão clara da curva, com aumento abrupto a partir do final de 2022 e, sobretudo, ao longo de 2023 e 2024. No segundo trimestre de 2024, a taxa atingiu 173 usuárias por 10.000 partos, representando um aumento expressivo em curto intervalo de tempo.
Essa mudança temporal coincide de forma clara com a introdução da semaglutida em formulação e indicação específicas para perda de peso, sugerindo que a ampliação do acesso e da indicação formal para obesidade foi o principal motor do aumento observado.
PERFIL DAS USUÁRIAS
Ao analisar as características das mulheres que utilizaram agonistas do GLP-1 no pós-parto, observa-se um perfil relativamente consistente ao longo do tempo. A maioria das usuárias tinha idade igual ou superior a 30 anos e apresentava paridade maior que um, embora cerca de um terço fossem primíparas.
O dado mais relevante diz respeito ao estado metabólico pré-gestacional. Entre as usuárias no período mais recente, entre 2023 e 2024, aproximadamente 80% apresentavam IMC pré-gestacional ≥ 27 kg/m², reforçando que a obesidade ou o sobrepeso com comorbidades constituíam a principal indicação clínica. Apenas 23% das usuárias desse período tinham diagnóstico prévio de diabetes, o que sugere fortemente que a motivação predominante para o uso foi a redução de peso, e não o controle glicêmico.
Outro achado importante é que a maioria das mulheres que iniciaram agonistas do GLP-1 no pós-parto recente não fazia uso dessa classe antes da gestação. Cerca de 73% das usuárias em 2023 e 2024 eram consideradas usuárias de primeira vez.
TIPO DE AGONISTA DE GLP-1 UTILIZADO
No período inicial, entre 2018 e 2022, o uso estava dividido entre liraglutida e semaglutida, refletindo a disponibilidade e as indicações vigentes à época. A partir de 2023, observa-se uma mudança quase completa desse padrão. A semaglutida passou a responder por 97% das prescrições no pós-parto, sendo que 89% delas correspondiam à formulação Wegovy, indicada especificamente para tratamento da obesidade.
Esse achado reforça a interpretação de que o fenômeno observado está diretamente relacionado à expansão da indicação e do uso da semaglutida para controle de peso, e não a uma mudança na epidemiologia do diabetes no período pós-parto.
O QUE PODEMOS APRENDER COM ESTE ESTUDO E COMO ELE INFLUENCIA NOSSA PRÁTICA MÉDICA
Este estudo fornece uma fotografia clara da mudança recente e acelerada da prática clínica. O uso de agonistas do receptor de GLP-1 no período pós-parto vem aumentando, predominantemente com finalidade de perda de peso. Trata-se de um fenômeno impulsionado pela disponibilidade de novos fármacos, pela ampliação das indicações formais e pela crescente demanda por intervenções eficazes no manejo da obesidade.
Do ponto de vista clínico, o estudo chama atenção para um desalinhamento entre a velocidade de incorporação terapêutica e a solidez da base de evidências em populações específicas. O pós-parto é um período de intensas adaptações hormonais e metabólicas, e os efeitos dos agonistas do GLP-1 nesse contexto ainda são pouco compreendidos. Além disso, a segurança durante a amamentação permanece insuficientemente estudada, tanto em relação à exposição direta do lactente quanto aos possíveis efeitos indiretos sobre crescimento e desenvolvimento.
Para a prática médica, especialmente em contextos como o brasileiro, onde a obesidade feminina em idade reprodutiva é altamente prevalente, os dados reforçam a necessidade de cautela e individualização. O estudo não avalia desfechos clínicos maternos ou infantis, mas evidencia que a decisão de iniciar agonistas do GLP-1 no pós-parto já está acontecendo em larga escala. Isso torna ainda mais urgente a produção de dados de farmacovigilância, estudos prospectivos e diretrizes claras que orientem o uso seguro desses medicamentos nesse período sensível.
O ponto chave do trabalho é que o mesmo evidencia uma lacuna importante entre prática e evidência. Reconhecer esse descompasso é fundamental para orientar decisões compartilhadas com as pacientes, equilibrando benefícios potenciais, incertezas de segurança e as particularidades fisiológicas do período pós-parto e na lactação.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
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