As estatinas constituem uma das intervenções farmacológicas mais impactantes da história da medicina cardiovascular. Seu efeito na redução do colesterol LDL traduz-se em diminuição consistente de eventos cardiovasculares maiores e mortalidade, tanto na prevenção primária quanto secundária. No entanto, à medida que seu uso se expandiu globalmente, alcançando populações cada vez mais jovens e metabolicamente vulneráveis, tornou-se evidente um evento adverso recorrente, que é o aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2.
Metanálises de boa qualidade demonstram que esse risco é modesto em termos absolutos, mas consistente, com relação dose-resposta e maior expressão em estatinas de alta potência. Ainda assim, por muitos anos, a discussão permaneceu centrada no desfecho final (diagnóstico de diabetes), sem compreensão clara do processo metabólico progressivo que leva a esse resultado. Em outras palavras, sabia-se que o risco aumentava, mas não como isso ocorria.
A fisiopatologia do diabetes tipo 2 envolve dois eixos fundamentais: resistência à insulina e falência progressiva das células beta pancreáticas. A literatura prévia sugeria que as estatinas poderiam atuar sobre um ou ambos os mecanismos, mas os dados eram conflitantes, frequentemente derivados de estudos de curta duração, pequenas amostras ou avaliações indiretas. Além disso, permaneciam pouco exploradas possíveis diferenças entre moléculas específicas e efeitos modulados pelo sexo biológico, apesar de evidências epidemiológicas sugerirem maior risco em mulheres, especialmente após a menopausa.
É nesse contexto que foi idealizado o estudo de Lai e colaboradores, utilizando dados longitudinais detalhados da coorte PROMISE. Seu objetivo foi acompanhar indivíduos sem diabetes em uso de estatinas por quase uma década, com avaliações metabólicas seriadas, oferecendo uma das análises mais completas até o momento sobre a trajetória da sensibilidade à insulina e da função das células beta em usuários de estatinas. Pela sua relevância, trazemos o estudo publicado no JCEM para discussão aqui no portal.
O ESTUDO
A coorte PROMISE (PROspective Metabolism and Islet cell Evaluation) é um estudo prospectivo canadense desenhado especificamente para investigar determinantes metabólicos precoces do diabetes tipo 2. Nessa coorte original foram incluídos adultos sem diabetes e sem doença cardiovascular conhecida, mas com alto risco metabólico, caracterizado por obesidade, histórico familiar de diabetes, hipertensão, histórico de diabetes gestacional, dentre outros fatores menos relevantes. Os participantes foram recrutados entre 2004 e 2006 e submetidos a avaliações clínicas e laboratoriais no baseline e em três visitas subsequentes, a cada três anos, totalizando 9 anos de seguimento.
A análise do estudo recentemente publicado a respeito dos usuários de estatinas incluiu 498 indivíduos, com idade média de 50 anos e predominância feminina (aproximadamente 74%), refletindo uma população particularmente relevante do ponto de vista de risco cardiometabólico.
O uso de estatinas foi auto-relatado, com verificação sistemática dos nomes genéricos e comerciais, e considerado positivo se presente em qualquer uma das visitas. Ao longo do seguimento, 169 participantes (34%) utilizaram estatinas, predominantemente rosuvastatina e atorvastatina, o que confere alta aplicabilidade clínica aos achados.
Um dos grandes diferenciais metodológicos do estudo reside na fenotipagem metabólica detalhada. Em todas as visitas, os participantes realizaram teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com dosagens seriadas de glicose e insulina, permitindo o cálculo de múltiplos índices validados:
- Sensibilidade à insulina hepática (HOMA2-%S);
- Sensibilidade à insulina corporal total (índice de Matsuda);
- Função de secreção precoce de insulina (IGI/IR);
- Função integrada das células beta ajustada à sensibilidade insulínica (ISSI-2).
Esses marcadores permitem avaliar não apenas resistência insulínica isolada, mas a capacidade adaptativa das células beta frente à demanda metabólica, conceito central na fisiopatologia do diabetes tipo 2.
As associações entre uso de estatinas e mudanças longitudinais nesses parâmetros foram analisadas por modelos de equações de estimação generalizadas (GEE), capazes de lidar com medidas repetidas e dados faltantes, com ajustes progressivos para idade, sexo, etnia, fatores de risco metabólicos, atividade física, adiposidade central, inflamação sistêmica, perfil lipídico e uso de anti-hipertensivos.
AO LONGO DE 9 ANOS DE SEGUIMENTO, O USO DE ESTATINAS FOI ASSOCIADO DE FORMA CONSISTENTE A TRAJETÓRIAS METABÓLICAS DESFAVORÁVEIS
Ao longo dos 9 anos de seguimento, o uso de estatinas foi associado de forma consistente a trajetórias metabólicas desfavoráveis, independentemente de múltiplos fatores de confusão. Em média, usuários de estatinas apresentaram:
- Redução de aproximadamente 5% a 6% na sensibilidade à insulina, tanto em medidas hepáticas quanto corporais totais;
- Redução de 5% a 8% na função das células beta, avaliada por diferentes índices fisiologicamente complementares.
Esses efeitos foram estatisticamente robustos e clinicamente plausíveis. Embora as magnitudes percentuais possam parecer modestas, sua persistência ao longo de quase uma década sugere um efeito cumulativo, capaz de deslocar indivíduos metabolicamente vulneráveis para além do limiar de disglicemia.
A análise estratificada por tipo de estatina revelou heterogeneidade relevante. A rosuvastatina apresentou associação mais consistente e de maior magnitude tanto com piora da sensibilidade à insulina quanto da função beta, com reduções que chegaram entre 8 a 10% em alguns índices. A atorvastatina, por outro lado, mostrou efeito mais pronunciado sobre a função das células beta, com impacto menos uniforme sobre a sensibilidade à insulina. Embora os números para outras estatinas tenham sido pequenos, observou-se um sinal de impacto metabólico ainda mais acentuado com a sinvastatina, coerente com dados prévios.
Um dos achados mais instigantes do estudo foi a diferença entre os sexos. Entre as mulheres, o uso de estatinas associou-se tanto à piora da sensibilidade à insulina quanto à disfunção beta. Nos homens, o efeito concentrou-se predominantemente na função das células beta, com menor impacto sobre a sensibilidade à insulina. Esses resultados sugerem mecanismos parcialmente distintos, possivelmente modulados por alterações hormonais, redistribuição de gordura corporal e transição menopausal, especialmente considerando a idade média da população feminina estudada.
Do ponto de vista clínico, esses achados se refletiram em desfechos: usuários de estatinas apresentaram risco aproximadamente duas vezes maior de desenvolver disglicemia (pré-diabetes ou diabetes) ao longo do seguimento, reforçando que as alterações intermediárias observadas têm relevância prática.
O QUE PODEMOS APRENDER COM ESTE ESTUDO E COMO ELE INFLUENCIA NOSSA PRÁTICA MÉDICA
Os dados sugerem que o efeito diabetogênico das estatinas não se limita a um aumento passivo da resistência insulínica, mas envolve também comprometimento progressivo da capacidade compensatória das células beta, elemento central na transição de normoglicemia para diabetes manifesto. Essa combinação é particularmente deletéria em indivíduos que já apresentam reserva funcional limitada.
Para a prática clínica, onde coexistem alta carga de risco cardiovascular e crescente prevalência de obesidade e pré diabetes, o estudo reforça a necessidade de estratificação metabólica cuidadosa antes e após o início de estatinas de alta potência.
O trabalho não questiona, em nenhum momento, o benefício cardiovascular das estatinas, que permanece amplamente superior ao risco metabólico na maioria dos cenários. Contudo, é enfatizado que o risco não é uniforme, e que escolhas mais individualizadas, incluindo tipo de estatina, dose, intensidade do tratamento e intervenções concomitantes no estilo de vida, podem ser condutas planejadas para mitigar efeitos adversos.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
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