A hipertensão arterial sistêmica é uma doença cardiovascular muito prevalente a nível mundial. Além disso, é uma das principais condições presentes em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Diante dessa relevância, inúmeros estudos tentam definir quais seriam os melhores alvos pressóricos em pacientes com DM2.
Recentemente, a The New England Journal of Medicine publicou um estudo que visou avaliar o tratamento intensivo da pressão arterial em pacientes com DM2. Segue abaixo um breve resumo dele.
O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e a hipertensão arterial sistêmica (HAS) são as doenças cardiometabólicas mais prevalentes globalmente. A HAS aumenta o risco cardiovascular em pacientes com DM2, sendo o fator de risco mais modificável nessa subpopulação.
Muitos guidelines recomendam redução dos níveis pressóricos em pacientes com DM2, porém os alvos para tal redução ainda são incertos.
O presente estudo visou investigar se o tratamento intensivo visando uma PAS ≤ 120 mmHg seria mais eficaz que o tratamento padrão que visa uma PAS ≤ 140 mmHg na redução do risco de eventos cardiovasculares graves em pacientes com DM2.
Metodologia
Em um ensaio clínico randomizado, foram selecionados pacientes com idade superior a 50 anos de idade , DM2, pressão arterial sistólica elevada (PAS ≥ 130-180 mmHg em pacientes que usam anti-hipertensivos ou pelo menos até 140 mmHg em pacientes que não tomam tais medicações) e risco cardiovascular aumentado (definido se preenchesse pelo menos um dos critérios: doença cardiovascular bem estabelecida, pelo menos, três meses antes do início do estudo, doença cardiovascular subclínica, pelo menos, três anos antes do início do estudo, dois ou mais fatores para aumento de risco cardiovascular e presença de insuficiência renal crônica com clearance de creatinina variando de 30- 60 ml per minuto per 1,73 m2 de superfície corporal ) de 145 locais da China.
Eles foram alocados de modo randomizado para receber um tratamento intensivo visando reduzir a PAS para ≤ 120 mmHg ou tratamento padrão para reduzir a PAS para ≤ 140 mmHg e foram acompanhados por cinco anos. Os pacientes eram vistos de modo mensal nos primeiros 3 meses e então de modo trimestral após atingir os níveis pressóricos exigidos.
Os desfechos primários analisados foram: acidente vascular cerebral não fatal, infarto agudo do miocárdio não fatal, tratamento ou hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte por causas cardiovasculares.
Resultados
Dos 12.821 pacientes selecionados, 6414 ficaram no grupo de tratamento intensivo enquanto 6407 ficaram no grupo de tratamento padrão.
5803 (45,3%) dos pacientes eram do sexo feminino, a média de idade foi de 63,8 +- 7,5 anos e 2888 (22,5%) dos pacientes apresentaram doença cardiovascular no início do estudo. Durante o primeiro ano de seguimento, a PAS média no grupo de tratamento intensivo foi de 121,6 mmHg e de 133,2 mmHg no grupo de tratamento padrão.
Durante a média de 4,3 anos de seguimento, 152 pacientes (1,2%) descontinuaram o tratamento, 605 (4,7%) perderam o seguimento e 423 (3,3%) abandonaram o estudo.
A incidência de efeitos adversos foi similar em ambos os grupos, porém o grupo do tratamento intensivo apresentou mais hipotensão e hipercalemia. O uso de agentes hipoglicemiantes, o índice de massa corporal (IMC), a circunferência abdominal e os níveis lipídicos também foram similares em ambos os grupos ao longo do seguimento.
Os desfechos primários ocorreram em 393 pacientes do grupo de tratamento intensivo e em 492 pacientes do grupo de tratamento padrão.
Discussão
Os achados do estudo mostraram que entre os pacientes com DM2 e aumento dos níveis pressóricos, a incidência de eventos cardiovasculares ao longo de cinco anos de seguimento foi menor no grupo de tratamento intensivo.
Todavia, o estudo contou também como algumas limitações: não ser duplo-cego, passou pelo período da pandemia no qual as aferições de PA eram feitas pelos próprios pacientes e informadas por telefone, apenas 60% dos pacientes do grupo de tratamento intensivo atingiu o alto pressórico após um ano de seguimento e houve diferenças entre os grupos no que tange à pressão arterial diastólica.
Apesar de os achados dos estudos sugerirem maior rigor no controle pressórico de pacientes com DM2, é preciso também que haja maior vigilância clínica em virtude dos possíveis efeitos colaterais do tratamento como hipotensão e hipercalemia.
Conclusão e mensagem prática
Em pacientes com DM2, a incidência de eventos cardiovasculares foi maior no grupo de tratamento padrão quando comparado ao grupo de tratamento intensivo.
Tais achados suportam a ideia de que um tratamento mais rigoroso da pressão arterial em pacientes com DM2 é capaz de reduzir ocorrência de eventos cardiovasculares. No entanto, mais estudos são necessários para melhor definição dos alvos pressóricos em variadas subpopulações de pacientes com DM2.
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