Um tema muito debatido atualmente é a desprescrição de medicamentos em pacientes idosos. Para além dos riscos da polifarmácia, essa prática é motivada principalmente pelas metas mais flexíveis adotadas nessa população no controle de doenças crônicas, como diabetes mellitus e hipertensão, associadas ao maior risco de eventos adversos relacionados ao tratamento. No caso do hipotireoidismo em pessoas com mais de 60 anos, ocorre algo semelhante: espera-se fisiologicamente um valor de hormônio tireoestimulante (TSH) mais alto, enquanto o excesso de levotiroxina aumenta o risco de arritmias e perda de massa óssea.

Novo estudo
Recentemente, foi publicado no JAMA, um estudo prospectivo aberto, de grupo único, em usuários de levotiroxina com 60 anos ou mais, para determinar a proporção de participantes que poderiam descontinuar o hormônio, mantendo testes de função tireoidiana aceitáveis (TSH menor que 10 e T4 livre normal). Os desfechos secundários incluíram fatores associados à descontinuação bem-sucedida (dados demográficos, função tireoidiana, dose) e qualidade de vida relacionada à tireoide.
Nesse tipo de estudo, é fundamental entender qual foi o perfil da população participante, antes de avaliar a aplicação na prática clínica. Foram incluídos indivíduos com 60 anos ou mais que estavam tomando levotiroxina na mesma dose há pelo menos 1 ano e dose de levotiroxina <= 150. Os critérios de exclusão eram: nível mais recente de TSH igual ou superior a 10 mUI/L; histórico de tireoidectomia, tratamento com iodo radioativo, irradiação do pescoço, hipotireoidismo congênito ou hipotireoidismo secundário; uso concomitante de amiodarona, lítio, liotironina, tiamazol, carbimazol ou propiltiouracila; insuficiência cardíaca classe IV da New York Heart Association; demência; ou expectativa de vida inferior a 6 meses.
A dose de levotiroxina foi reduzida em 12,5 a 50 μg/dia na linha de base; 25 a 38 μg/dia após 6 e 12 semanas; e 25 μg/dia após 18, 24 e 30 semanas, com testes de TSH e T4 livre realizados em um laboratório local e consulta com o médico clínico geral antes de cada redução de dose. Dos 370 participantes que iniciaram a fase de descontinuação da levotiroxina, 366 completaram o acompanhamento final de 1 ano. Dos 370 participantes, 95 (25,7%) interromperam com sucesso o uso de levotiroxina e apresentaram um nível mediano de TSH de 5,03 mUI/L (variação, 1,56-9,40 mUI/L) após 1 ano.
Resultados
Dos 95 participantes que interromperam com sucesso o uso de levotiroxina, 46 (48,4%) apresentaram um nível de TSH inferior a 4,8 mUI/L. Entre os 88 participantes que tomavam levotiroxina em dose de 50 μg/dia ou inferior, 56 (63,6%) interromperam com sucesso o tratamento. A qualidade de vida relacionada à tireoide não apresentou alterações clinicamente relevantes no geral, do início do estudo até 1 ano.
Vale observar que a meta do estudo era manter um TSH abaixo de dez após um ano, ou seja era aceitável que o paciente se mantivesse em hipotireoidismo subclínico após a retirada do medicamento. Isso está de acordo com as diretrizes mais recentes sobre hipotireoidismo no idoso, que recomendam não tratar esses pacientes.
Conclusão e mensagem prática
O estudo nos mostra que a descontinuação da levotiroxina deve ser considerada em adultos com 60 anos ou mais, particularmente naqueles que tomam uma dose de 50 μg/dia ou inferior, um perfil muito comum no consultório do endocrinologista.
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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