A função sexual é um componente fundamental da qualidade de vida e resulta da interação entre fatores biológicos, hormonais, neurológicos, vasculares e psicossociais. Aproximadamente 40% das mulheres em idade reprodutiva apresentam alguma disfunção sexual.
Entre as causas estão os distúrbios do assoalho pélvico, especialmente o prolapso de órgãos pélvicos (POP) e a incontinência urinária (IU). Essas condições estão frequentemente associadas à redução do desejo sexual, à dificuldade de excitação, às alterações do orgasmo e à dispareunia, impactando negativamente a qualidade de vida e os relacionamentos.
Embora o tratamento cirúrgico do POP e da incontinência urinária seja amplamente realizado, os efeitos dessas intervenções sobre a função sexual permanecem controversos. Estudos prévios apresentam resultados conflitantes, em parte devido à inclusão de populações heterogêneas, às diferentes técnicas cirúrgicas e aos múltiplos instrumentos de avaliação da função sexual.
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Nesse contexto, a revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 no periódico Sexual Medicine Reviews, conduzida por Ying e colaboradores, comparou o impacto das cirurgias para POP e IU sobre a função sexual feminina. O estudo também avaliou se diferentes instrumentos validados apresentavam comportamentos distintos na mensuração desses desfechos.
Como a revisão sistemática foi realizada?
O trabalho foi conduzido como uma revisão sistemática com metanálise, seguindo as recomendações do PRISMA e com protocolo previamente registrado no PROSPERO (CRD420251031560).
A busca bibliográfica incluiu PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane Library, desde a criação das bases até 2025. Foram considerados elegíveis ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte que incluíram mulheres adultas submetidas a cirurgias para correção de POP e IU, desde que houvesse avaliação da função sexual por meio de instrumentos validados, como o Female Sexual Function Index (FSFI) e o Pelvic Organ Prolapse/Urinary Incontinence Sexual Questionnaire (PISQ-12).
Ao todo, foram incluídos 127 estudos, sendo 18 ensaios clínicos randomizados e 109 estudos de coorte, com 14.593 mulheres. Desses, 103 forneceram dados suficientes para a metanálise.
Os autores analisaram separadamente os resultados pré e pós-operatórios, compararam diferentes técnicas cirúrgicas e realizaram análises de subgrupos conforme o tipo de estudo, o tempo de seguimento e a técnica empregada.
O risco de viés foi avaliado pelo instrumento RoB da Cochrane para os ensaios clínicos e pela Newcastle-Ottawa Scale (NOS) para os estudos observacionais.
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Principais resultados sobre a função sexual
Quando a função sexual foi avaliada pelo FSFI, as mulheres submetidas à cirurgia para POP não apresentaram melhora significativa em relação ao pré-operatório — diferença de médias (DM) de 1,78; intervalo de confiança de 95% (IC 95%) de −0,90 a 4,46; p = 0,19.
Em contraste, as pacientes operadas por incontinência urinária de esforço apresentaram melhora do escore — DM de 1,60; IC 95% de 0,29 a 2,91; p = 0,02; I² = 94%.
Quando analisado o PISQ-12, observou-se melhora significativa da função sexual tanto após as cirurgias para POP — DM de 4,81; IC 95% de 2,73 a 6,89; p < 0,01 — quanto após as cirurgias para IU — DM de 2,97; IC 95% de 1,09 a 4,85; p < 0,01. Não foram identificadas diferenças consistentes entre as técnicas cirúrgicas avaliadas.
Na comparação entre as técnicas cirúrgicas para POP, os procedimentos laparoscópicos foram associados a melhores escores de FSFI quando comparados à via vaginal — DM de 4,20; IC 95% de 2,77 a 5,27; p < 0,01.
Entre os diferentes tipos de sling para incontinência urinária, não houve diferença significativa na função sexual (p = 0,11).
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O que foi observado em relação à dispareunia?
Em relação à dispareunia, não foram identificadas diferenças significativas entre as diferentes técnicas cirúrgicas para POP.
Entretanto, na comparação entre os períodos pré e pós-operatório, houve redução da dispareunia após a cirurgia para prolapso — risco relativo (RR) de 0,39; IC 95% de 0,21 a 0,70; p < 0,01.
Nas cirurgias para incontinência urinária, por outro lado, a frequência de dispareunia variou conforme a técnica empregada — RR de 2,11; IC 95% de 1,04 a 4,30; p = 0,04.
Por que o instrumento de avaliação modifica os resultados?
Embora revisões anteriores tenham demonstrado que a cirurgia para IU costuma melhorar a função sexual, permaneciam dúvidas sobre os efeitos das diferentes cirurgias para prolapso e sobre a influência do instrumento utilizado na avaliação desses desfechos.
Esta revisão é a maior síntese disponível até o momento e mostra que a interpretação dos resultados depende do questionário empregado. Enquanto o FSFI pode não detectar mudanças significativas após cirurgias para POP, o PISQ-12, desenvolvido especificamente para mulheres com distúrbios do assoalho pélvico, demonstra melhora consistente da função sexual.
O Female Sexual Function Index (FSFI) é o questionário mais amplamente utilizado para a avaliação da função sexual feminina na população geral. É composto por 19 perguntas distribuídas em seis domínios: desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor.
No entanto, por não ter sido desenvolvido especificamente para mulheres com distúrbios do assoalho pélvico, o FSFI pode não captar adequadamente o impacto que sintomas como prolapso ou perda urinária exercem sobre a atividade sexual.
Em contrapartida, o Pelvic Organ Prolapse/Urinary Incontinence Sexual Questionnaire (PISQ-12) foi desenvolvido especificamente para mulheres com prolapso de órgãos pélvicos e/ou incontinência urinária.
Além de aspectos da função sexual, o instrumento avalia como sintomas relacionados ao assoalho pélvico, como sensação de abaulamento vaginal, perda urinária durante a relação, desconforto e constrangimento, interferem na vida sexual.
Dessa forma, tende a ser mais sensível para detectar os benefícios proporcionados pelas cirurgias corretivas dessas condições, embora apresente menor abrangência na avaliação de aspectos gerais da sexualidade, como desejo, excitação e orgasmo.
Limitações da evidência disponível
O estudo reforça que a função sexual é um desfecho relevante quando se considera o tratamento cirúrgico dos distúrbios do assoalho pélvico.
Outro achado foi a associação das abordagens laparoscópicas a melhores escores de FSFI nas cirurgias para POP. Entretanto, esse dado deve ser interpretado com cautela, considerando a heterogeneidade das técnicas incluídas.
Apesar do elevado número de participantes, a maioria dos estudos incluídos apresentou desenho observacional (85,8%) e, em sua maioria, demonstrou boa qualidade segundo a Newcastle-Ottawa Scale.
Os ensaios clínicos, por sua vez, apresentaram risco de viés incerto devido à descrição insuficiente da randomização, da ocultação da alocação e do mascaramento.
Outro ponto a ser considerado na metanálise é a heterogeneidade extremamente elevada. Esse achado pode refletir diferenças importantes entre populações, técnicas cirúrgicas, critérios de inclusão, tempo de seguimento e instrumentos de avaliação.
Essas diferenças reduzem a precisão das estimativas combinadas e dificultam a extrapolação dos resultados para cenários específicos.
Como interpretar os achados na prática clínica?
A principal contribuição da revisão não foi mostrar que uma cirurgia é superior à outra, mas evidenciar que o desfecho depende do instrumento utilizado.
O PISQ-12 parece ser mais responsivo para detectar os benefícios específicos da correção do prolapso e da incontinência, enquanto o FSFI continua sendo mais adequado quando o objetivo é avaliar a função sexual feminina em sua dimensão global.
Isso explica por que estudos que utilizam apenas o FSFI podem subestimar o impacto positivo dessas cirurgias sobre a sexualidade relacionada ao assoalho pélvico.
Na prática clínica, esses dados reforçam a importância do aconselhamento pré-operatório, com a abordagem de expectativas realistas quanto à função sexual e a individualização da escolha da técnica cirúrgica conforme as características anatômicas, os sintomas e as prioridades da paciente.
Autoria

Sérgio Okano
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.
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