Recentemente, a International Society for the Study of Vulvovaginal Disease (ISSVD) publicou uma atualização sobre a terminologia das lesões escamosas vulvares, estabelecendo um novo quadro para classificação, diagnóstico e manejo da neoplasia intraepitelial vulvar (NIV) e das lesões intraepiteliais escamosas. A atualização foi liderada pelo Dr. Mario Preti, presidente da comissão de terminologia, e por uma equipe internacional multidisciplinar de especialistas em ginecologia, oncologia ginecológica, dermatologia e patologia.
A nova terminologia reflete o entendimento científico mais recente sobre a carcinogênese vulvar e as lesões precursoras. Os avanços em patologia e diagnóstico molecular, além da melhor compreensão das vias de doença associadas ou não ao HPV, exigiram uma classificação mais consistente e biologicamente significativa.
A nova terminologia classifica as lesões segundo duas vias distintas — associada ao HPV (HPVa) e independente do HPV (HPVi) — e torna a imuno-histoquímica para p16 e p53 ferramenta essencial para a classificação precisa.

Objetivos da atualização terminológica
A atualização tem como objetivos alinhar a terminologia com a evidência atual e com a evolução terminológica da Organização Mundial da Saúde (OMS), melhorar a comunicação entre clínicos, patologistas, pesquisadores e pacientes e dar suporte para avaliação de risco e planejamento terapêutico mais acurados.
p16 e p53 ganham papel central na classificação
O marcador p16 é marcador substituto para integração genômica do HPV oncogênico, com coloração em bloco positiva. Já o marcador p53 correlaciona-se com mutação TP53, com coloração nula ou superexpressa.
Como ficam os termos para doença associada ao HPV?
As mudanças preconizadas são:
Doença associada ao HPV — termo preferido:
- HPVa NIV — termo preferido;
- HSIL vulvar, ou lesão intraepitelial escamosa de alto grau vulvar — termo alternativo aceitável;
- LSIL, ou lesão intraepitelial escamosa de baixo grau;
- condiloma.
A LSIL e os condilomas representam manifestações transitórias do HPV.
Como ficam os termos para doença independente do HPV?
Doença independente do HPV — termo preferido:
- HPVi NIV — termo preferido;
- HPVi NIV p53 mutado — termo alternativo aceitável;
- HPVi NIV p53 selvagem — termo alternativo aceitável;
- maturação vulvar aberrante (VAM).
A HPVi NIV p53 mutado, termo alternativo aceitável, quase sempre surge do líquen escleroso de longa duração.
Saiba mais: Como diagnosticar e tratar o líquen escleroso?
A HPVi NIV p53 selvagem é um termo alternativo aceitável. A NIV verrucosa é um subtipo, descrito como precursor usual do carcinoma verrucoso.
A maturação vulvar aberrante (VAM) surge do líquen escleroso, com potencial neoplásico incerto.
O uso do termo “neoplasia” significa risco estabelecido de progressão para câncer, enquanto “lesão” indica manifestações transitórias ou de menor potencial maligno.
Termos antigos passam a ser desaconselhados
Termos antigos desaconselhados ou não recomendados incluem: NIV diferenciada, NIV 1/2/3, NIV usual, NIV clássica, doença de Bowen, hiperplasia de células escamosas, DEVIL e VAAD.
Implicações clínicas da nova classificação
A aparência clínica isolada não diferencia, de forma confiável, a doença associada ao HPV da doença independente do HPV. É necessária correlação clínico-patológica e uso dos marcadores p16/p53.
Saiba mais: Câncer de vulva e neoplasias intraepiteliais vulvares
O tratamento e o seguimento das duas vias, HPVa e HPVi, devem considerar que elas representam entidades clínicas distintas, com patogênese, risco, manejo, vigilância e prognóstico diferentes.
A doença HPVi tem maior risco de progressão para câncer e pior prognóstico em comparação à HPVa.
Assim, a nova terminologia facilita decisões terapêuticas mais dirigidas e enfatiza a necessidade de estreita colaboração entre clínicos e patologistas para diagnóstico e conduta adequados.
Saiba mais: CBGO 2026 – Patologia vulvar: diagnóstico e manejo de lesões frequentes
Mensagem prática
A atualização oferece uma classificação mais moderna e biologicamente informada das lesões vulvares escamosas, padronizando termos, incorporando p16 e p53 como marcadores essenciais e diferenciando claramente as vias HPVa e HPVi para melhorar diagnóstico, comunicação clínica e planejamento terapêutico.
Autoria

Caroline Oliveira
Editora-chefe médica na Afya. Formada em medicina pela UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Residência médica em Ginecologia e Obstetrícia no Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ). Doutora em Ciências Médicas pela Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências pelo IFF/FIOCRUZ.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.