O estudo analisado foi publicado em 2025 na revista Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, e investigou, com dados individuais de participantes, se o misoprostol por via oral é tão eficaz e seguro quanto o dinoprostone vaginal para indução do trabalho de parto.

Introdução
A indução do trabalho de parto é uma das intervenções obstétricas mais realizadas no mundo, especialmente em situações clínicas em que antecipar o parto traz benefícios para a mãe ou para o recém-nascido. Entre os métodos farmacológicos disponíveis, o dinoprostone vaginal (prostaglandina E2) é amplamente utilizado, enquanto o misoprostol oral (prostaglandina E1) surge como alternativa prática e de baixo custo. No entanto, ainda há dúvidas sobre a segurança comparativa e a taxa de parto vaginal entre essas duas estratégias.
Metodologia
Os pesquisadores realizaram uma metanálise de dados individuais, considerada o padrão mais robusto para comparar intervenções. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados que compararam misoprostol oral e dinoprostone vaginal na indução do parto em gestantes com feto único e viável.
A busca foi realizada em múltiplas bases de dados (MEDLINE, Embase, Emcare, CINAHL, Scopus e ClinicalTrials.gov), sem restrição de idioma. Os autores dos estudos elegíveis foram convidados a compartilhar seus bancos de dados anonimizados, permitindo reanálises padronizadas.
A metanálise utilizou um modelo de efeitos aleatórios em duas etapas, com abordagem por intenção de tratar. Os desfechos principais avaliados foram: parto vaginal, um composto de desfechos maternos adversos e um composto de desfechos perinatais adversos.
Além disso, os estudos foram avaliados quanto à confiabilidade metodológica utilizando o sistema TRACT, garantindo que apenas ensaios de alta integridade fossem incluídos na análise primária.
Resultados principais
Dos 18 ensaios clínicos elegíveis, oito disponibilizaram dados individuais, sendo que cinco, com 1.892 participantes, atenderam aos critérios de confiabilidade TRACT.
Nessa metanálise de dados individuais, misoprostol oral e dinoprostone vaginal apresentaram taxas semelhantes de parto vaginal (OR 0,99; IC95% 0,80–1,22; I² = 0%). Os desfechos perinatais adversos (aOR 1,02; IC95% 0,61–1,72; I² = 0%) e os desfechos maternos adversos (aOR 1,39; IC95% 0,72–2,69; I² = 0%) também foram comparáveis entre os dois métodos.
Entre os 10 estudos que não compartilharam seus dados individuais, sete foram considerados confiáveis. A metanálise agregada desses 12 estudos reforçou a semelhança entre misoprostol oral e dinoprostone vaginal, com taxas equivalentes de parto vaginal (OR 1,08; IC95% 0,92–1,27).
Por outro lado, seis estudos classificados como pouco confiáveis, independentemente de terem ou não compartilhado seus dados, apresentaram resultados que favoreciam artificialmente o misoprostol oral, com maiores taxas de parto vaginal (OR 1,34; IC95% 1,22–1,48). A inclusão desses estudos distorceu a estimativa global, levando a uma falsa impressão de superioridade do misoprostol (OR geral 1,19; IC95% 1,05–1,36).
O que esses achados significam?
A análise rigorosa e restrita a estudos confiáveis demonstra que misoprostol oral e dinoprostone vaginal têm eficácia e segurança semelhantes na indução do parto. Os métodos apresentam taxas parecidas de parto vaginal e perfis similares de eventos adversos maternos e perinatais.
Além disso, o estudo reforça a importância de considerar a qualidade metodológica ao interpretar resultados científicos. Ensaios menos confiáveis tendem a superestimar benefícios, podendo gerar conclusões clínicas equivocadas.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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