A neutropenia febril é uma complicação grave e comum no tratamento de pacientes com doenças hematológicas e mudanças epidemiológicas recentes, com aumento de infecções causadas por bactérias multirresistentes, representam um grande desafio para o manejo adequado dessa complicação. Como a resistência bacteriana pode variar de acordo com o perfil microbiológico de cada região, nos ampararmos em consensos internacionais pode não ser o mais adequado nesses casos.
Dessa forma, o Comitê de Doenças Infecciosas da Associação Brasileira de Hematologia, Transfusão Sanguínea e Terapia Celular (ABHH) publicou um documento para o manejo da neutropenia febril em pacientes hematológicos. Tal consenso foi desenvolvido por dez especialistas na área, usando a metodologia Delphi, que definiram uma série de questões:
Quais as principais definições que devemos ter em mente?
- Neutropenia é definida como uma contagem absoluta de neutrófilos < 500/mL.
- Febre é definida como uma temperatura axilar > 38 °C.
- Febre persistente é definida como febre que persiste após 3 dias de terapia antibiótica.
- Febre recorrente é definida como um novo episódio de febre após 48h sem febre.
Pacientes neutropênicos devem receber profilaxia antibiótica?
- O uso rotineiro de antibiótico profilático não é recomendado, sendo reservado apenas para leucemia mieloide aguda (LMA) recebendo intensiva quimioterapia para indução de remissão ou após transplante autólogo.
- Em locais com baixa incidência de colonização/infecção por bactérias gram-negativas é recomendada profilaxia com quinolona (não houve consenso entre Ciprofloxacino ou levofloxacino) e deve ser realizado acompanhamento rigoroso com relação ao surgimento de resistência bacteriana.
Os pacientes neutropênicos devem receber profilaxia antifúngica?
- É recomendada profilaxia na indução de remissão da LMA, sendo posaconazol a droga de escolha. Na fase de consolidação a profilaxia não é recomendada.
- Se a profilaxia for usada após transplante autólogo, a droga escolhida deve ser fluconazol.
- Após transplante alogênico a droga recomendada é o voriconazol.
- Equinocandina é uma opção se o paciente desenvolver toxicidade hepática ou estiver recebendo uma terapia direcionada que interaja com o azólicos.
Culturas de vigilância para avaliar colonização por bactérias resistentes devem ser realizadas em pacientes neutropênicos?
- O painel recomenda coleta de swab anal na admissão para avaliar a colonização por gram-negativos multirresistentes. Além de swabs anais semanais em centros com alta incidência de colonização e/ou infecção por gram-negativos multirresistentes.
O que deve ser feito antes de iniciar antibioticoterapia em um paciente com neutropenia febril?
- Deve ser realizada coleta de dois sets de hemoculturas de uma veia periférica e de um cateter, caso haja, que devem ser semeados em frascos para aeróbios, anaeróbios e fungoss antes do início da terapia antibiótica empírica.
- Raio X de tórax não deve ser feito. Em caso de sintomas respiratórios, realizar tomografia computadorizada de tórax.
- Cultura de urina não deve ser feita de rotina.
- Tomografia computadorizada de abdome deve ser realizada em caso de sintomas abdominais.
Qual regime antimicrobiano devemos iniciar empiricamente?
- Cefepima ou piperacilina-tazobactam figuram como as escolhas empíricas, sendo a opção entre um ou outro baseada na epidemiologia local e na toxicidade potencial de cada droga.
- Uso rotineiro de carbapênicos como terapia empírica e desencorajado, sendo indicado apenas para os pacientes que apresentam hipotensão ou deterioração clínica e são colonizados por enterobactérias produtoras de ESBL ou tiveram uma bacteremia causada por esse agente em um episódio anterior de neutropenia febril. Se não houver isolamento de gram-negativo resistente em hemocultura, o indicado é o descalonamento para cefepima ou piperacilina-tazobactam.
- Deve-se acrescentar cobertura para anaeróbios se houver sinais de infecção abdominal ou dor perianal.
Quando usar vancomicina ou outro agente com cobertura para MRSA?
- A cobertura contra MRSA é desencorajada empiricamente, inclusive para pacientes colonizados por MRSA ou que tenham mucosite ou pneumonia.
- Quando optado por cobertura de MRSA, a vancomicina é o agente de escolha.
Quando usar um agente antifúngico?
- Terapia antifúngica empírica não é recomendada para pacientes neutropênicos com febre persistente ou recorrente após 4 a 7 dias de terapia antibiótica.
- É recomenda uma estratégia preventiva de terapia antifúngica não profilática em pacientes neutropênicos usando galactomanana sérica e uma tomografia computadorizada de tórax.
- Quando usar terapia antifúngica, o recomendado é anfotericina B lipossomal, caspofungina ou voriconazol.
Quais biomarcadores devemos acompanhar?
- Deve-se acompanhar a proteína C reativa (sugere-se dosagem de três vezes na semana).
- A coleta de galactomanana sérica é recomendada (2 a 3 vezes por semana) para pacientes com alto risco de desenvolver aspergilose invasiva e que não estejam em uso de profilaxia antiúngica.
- A coleta de galactomanana em lavado broncoalveolar deve ser realizada na suspeita de pneumonia fúngica.
Novas hemoculturas devem ser coletadas se febre persistente ou recorrente?
- Sim.
Quando indicar procedimentos invasivos?
- Deve-se realizar biópsia de pele em pacientes que tiverem lesões.
- Deve-se realizar broncoscopia com lavado broncoalveolar em pacientes neutropênicos febris que apresentam infiltrados pulmonares focais suspeitos de aspergilose invasiva e galactomanana sérica negativa.
Quando suspender o tratamento antibiótico?
- O tratamento deve ser descontinuado se a neutropenia for resolvida e não houver documentação de infecção, mesmo que o paciente ainda esteja febril.
- Após a recuperação dos neutrófilos, se houver documentação de infecção durante a neutropenia febril, o regime antibiótico deve ser ajustado e mantido até a resolução da infecção documentada.
- O painel recomenda descontinuar o regime antibiótico empírico após quatro dias em pacientes persistentemente neutropênicos que não tenham nenhuma documentação de infecção e tenham sinais vitais normais.
- O painel recomenda continuar o regime antibiótico empírico em pacientes que persistem neutropênicos e febris.
Quando suspender o tratamento antifúngico?
- O painel recomenda descontinuar a terapia antifúngica não profilática após a recuperação dos neutrófilos se não houver documentação de uma doença fúngica invasiva, independentemente da duração da terapia antifúngica.
- O painel recomenda que após a recuperação dos neutrófilos, a duração da terapia antifúngica não profilática deve ser definida caso a caso, considerando a doença fúngica diagnosticada, o estado imunológico do hospedeiro e a resposta ao tratamento.
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