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Medicina de Emergência22 dezembro 2025

O que influencia a taxa de pacientes atendidos por hora na emergência?

Um estudo buscou entender o que afeta a produtividade em unidades de emergência, avaliando dados dos Estados Unidos

O número de atendimentos no setor de emergência é muito variável. Localização da unidade de saúde, experiência e especialidade do médico, turno de trabalho (dia ou noite) e duração do plantão e aspectos não técnicos podem influenciar a produtividade.

A saber, entende-se produtividade pela taxa de pacientes atendidos por unidade de tempo, que na maioria das vezes é de pacientes/hora. Quando se pensa em aumento da produtividade, trabalha-se com aumento do número de consultas por hora, reduzindo o tempo de cada atendimento. Embora se ganhe por produção, pode haver queda de qualidade e outros parafeitos, como aumento do número de exames complementares e insatisfação do paciente. As evidências apontam para a relação entre produtividade do médico e exames complementares e até internações hospitalares (nestes casos, a relação é inversa). Mas a relação entre a produtividade e o retorno precoce do paciente (até 72 horas) ainda é desconhecida.

Um estudo publicado este ano avaliou o que influencia a produtividade nas unidades de emergência.

médico anotando

Produtividade na emergência

O estudo buscou identificar fatores do médico e ambientais (como superlotação) associados à produtividade do médico emergencista, medida como pacientes por hora. Também avaliou se a produtividade estava associada a maiores taxas de retorno à emergência em até 72 horas.

Métodos

O estudo foi retrospectivo e observacional, com dados levantados de prontuários eletrônicos e contas de uma grande rede de serviços de emergência nos Estados Unidos com mais de 200 departamentos de emergência e 2.556 médicos em 24 estados; inclui-se 184 departamentos abrangendo 234.146 turnos de plantão e 2.099 médicos, por 2 anos (janeiro de 2021 a dezembro de 2022).

Foram excluídos setores com horários de plantão menor que 6 horas e maior que 14 horas (eram poucos e muito diferentes do esquema habitual), além de não contar também com plantões onde a produtividade foi menor que 1 paciente por hora. Hospitais universitários também foram excluídos, porque a produtividade e o número de médicos na mesma consulta poderia ser muito diferente dos hospitais tradicionais pela presença de estudantes. Finalmente se excluiu dados de médicos que fizeram menos que 10 turnos de plantão em 1 setor.

Foram analisados preditores de acordo com características dos médicos (idade, sexo e tempo de experiência no setor), dos plantões (trabalho repetido em até 48 horas ou entre 3 e 30 dias, duração do plantão, diurno/noturno, dia da semana), e operação do setor (número de pacientes e médicos presentes no plantão por turno). Pacientes considerados de maior permanência (“boarding”) foram classificados com tempo maior de 6 horas na emergência. A gravidade dos pacientes foi estimada com o índice Emergency Severity Index (ESI), que estratifica o paciente em 5 níveis – do 1 (que é o mais crítico como parada cardíaca, coma ou choque) até 5 (estável, sem gravidade, que pode necessitar medicações orais ou tópicas); houve 14% de missing neste dado.

Ouça também: O raciocínio clínico na emergência [podcast]

Resultados

  1. Características dos médicos e dos plantões

A maior parte dos médicos estava na faixa etária de menos de 35 anos (27%) e na faixa de 35 a 39 anos (21%). Cerca de dois terços dos médicos eram homens e 60% dos médicos estava trabalhando no hospital por mais de dois anos. Pelo menos 50% deles deram algum plantão nas últimas 48 horas antes do plantão índice e em média, os médicos deram 12 plantões no período de três a 30 dias antes do plantão inicial do estudo.

A média era de 9 horas por plantão. Provavelmente os médicos davam turnos de 8 horas majoritariamente e alguns médicos davam plantão por 12 horas. Havia cerca de 4 pacientes que se tornavam pacientes por mais de 6 horas no setor de emergência (“boarding”) e cerca de 21 pacientes que já estavam internados nesse tempo na troca de plantão.

  1. Fatores associados à produtividade e retorno à emergência

A produtividade foi medida como o número de pacientes por hora no turno, com uma média de 1,94 土 0,57.
Os fatores preditores de produtividade nos setores de emergência foram considerados por fatores associados ao médico associados ao turno de plantão e também associado ao ambiente, ou seja, cada setor de emergência.

Médicos mais jovens apresentavam maior produtividade, mas a produtividade se manteve estável nas faixas etárias entre 35 e 55 anos de idade; médicos com idade maior que 55 anos tiveram menor produtividade de paciente por hora. E houve tendência também a uma maior produtividade de médicos homens quando comparados a médicas mulheres. Quanto mais tempo o médico estava trabalhando naquele setor de emergência, maior era a produtividade também de pacientes por hora, e essa relação teve uma relação linear de acordo com o tempo, sendo a maior quando o médico já estava trabalhando há mais de 5 anos naquele lugar.

Foi interessante ver também que quando os médicos davam plantão num espaço menor que 2 dias antes do plantão anterior, a produtividade era um pouco menor. Essa produtividade era melhor quando ele estavam plantão no espaço de três a 30 dias após o último plantão realizado. Plantões noturnos também tiveram menor produtividade e o dia de maior produtividade foi a segunda-feira, como já era esperado e ocorre na maioria dos lugares do mundo.

Para cada hora de plantão acima de 6 horas, a produtividade médica diminui de maneira discreta. E a gravidade do paciente medida pelo é EMI, também esteve associada a produtividade de maneira linear e positiva, ou seja, se os pacientes eram menos graves, a produtividade caía, enquanto naqueles plantões onde havia pacientes mais graves a produtividade crescia gradativamente.

Leia mais: 5 mnemônicos para salvar o plantão

O mais curioso é que quando se analisou a taxa de retorno até 72 horas ao setor de emergência. A maior produtividade teve relação com menor número de visitas, mesmo quando se analisam visitas de emergência que resultaram em internação hospitalar. Não houve associação significativa entre o número de pacientes por hora e retornos em 72 horas com admissão. A produtividade mais alta não foi associada a resultados clínicos negativos. Esse resultado aparentemente é o contrário do que se esperava, mas como é um estudo retrospectivo e observacional, essa maior produtividade pode também estar ligada à maior eficiência e experiência do médico. A taxa de retorno a emergência pode estar ligada mais a essas características do médico do que o tempo de atendimento e a produtividade em si.

Por último, o número de pacientes que permanece no setor de emergência por mais tempo, parece atrapalhar a produtividade e a diminui quanto maior o tempo que o paciente permanece na emergência sem uma decisão de alta ou internação.

Produtividade (pacientes por hora)

Fatores do médico (associação positiva):

  • Idade mais jovem
  • Maior tempo de permanência no local, com aumentos contínuos até 60+ meses (ex: 0,06 a mais em 6 meses, 0,11 a mais em 12 meses)
  • Sexo masculino (0,07 a mais que o feminino)
  • Mais turnos trabalhados nos 3 a 30 dias anteriores (0,003 a mais por turno adicional)

Fatores do turno e ambientais (associação negativa):

  • Turnos noturnos
  • Turnos que não são segundas-feiras (especialmente fins de semana)
  • Mais médicos trabalhando no turno
  • Turnos mais longos
  • Maior número de pacientes com tempo de permanência no DE superior a 6 horas (indicador de “boarding”)

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.

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Referências bibliográficas

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