Com o envelhecimento populacional, cresce o interesse e a necessidade de uso de medicamentos à base de canabinoides para condições clínicas diversas em idosos. Estudos vêm apontando os benefícios potenciais dos canabinoides tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) para analgesia, relaxamento muscular e distúrbios neurológicos. Contudo, os riscos associados às reações adversas nessa população permanecem incertos. Para ajudar a avaliar essa questão, um estudo publicado em 2024 na revista Age and Ageing, utilizou uma meta-análise para avaliar diferenças nas taxas de incidência desses efeitos adversos em pacientes em uso de canabinoides com média de idade ≥ 50 anos.
Os autores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise com base em 58 ensaios clínicos randomizados publicados entre 1990 e 2023. Foram incluídos estudos com canabinoides para qualquer indicação terapêutica em adultos mais velhos, excluindo-se aqueles focados no uso recreativo. Foram incluídos na análise 6.611 indivíduos (idade média: 50 a 87 anos, 50% homens), dos quais 3.450 receberam canabinoides contendo THC ou combinações THC + CBD.
Os principais desfechos incluíram eventos adversos gerais, eventos adversos relacionados ao tratamento, eventos adversos graves, descontinuação devido a eventos adversos e óbitos. As taxas de incidência de eventos foram expressas como diferenças de taxas de incidência (IRD) por 1.000 pessoas-ano, utilizando modelos de efeitos aleatórios.
Os resultados demonstraram taxas elevadas de eventos adversos associados ao uso de canabinoides contendo THC, isolado ou em combinação com CBD.
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Para eventos adversos gerais, foram encontradas diferenças de taxa de incidência (IRD) de 18,83 para THC isolado (IC 95%, 1,47–55,79) e de 19,37 para combinação THC + CBD (IC 95%, 4,24–45,47). Já para eventos adversos relacionados ao tratamento, verificou se uma IRD de 16,35 para THC isolado (IC 95%, 1,25–48,56) e de 11,36 para combinação THC + CBD (IC 95%, 2,55–26,48). Eventos adversos graves e óbitos não apresentaram diferenças significativas em relação aos grupos de controle dos estudos revisados.
A revisão sistemática identificou os eventos adversos com incidência mais significativa, sendo eles:
- Tontura/sensação de “cabeça leve” (IRD: 0,819; IC 95%, 0,489–1,232);
- Sonolência (IRD: 0,684; IC 95%, 0,055–2,014);
- Distúrbios de dificuldades de mobilidade/equilíbrio/coordenação (IRD: 0,078; IC 95%, 0,006–0,234);
- Problemas dissociativos/de pensamento/percepção (IRD: 0,510; IC 95%, 0,260–0,844);
- Euforia (IRD: 9,117; IC 95%, 0,765–26,669).
- Boca seca (IRD: 1,059; IC 95%, 0,346–2,161).
O estudo aponta que as taxas de eventos adversos aumentam de forma dose-dependente, especialmente para os eventos neurológicos e psiquiátricos.
Os achados indicam que os canabinoides são seguros para adultos mais velhos e idosos, mas o uso de produtos contendo THC exige precaução. Eventos como tontura e distúrbios de coordenação podem aumentar o risco de quedas, importantes causas de morbimortalidade nessa população. A relação dose-resposta identificada reforça a necessidade de monitoramento rigoroso e titulação cuidadosa das doses, especialmente em indivíduos com comorbidades.
Os resultados também destacam a ausência de dados robustos sobre doses específicas associadas a condições clínicas específicas, sugerindo a necessidade de mais estudos sobre o tema. Além disso, a heterogeneidade entre os estudos analisados na revisão limita a generalização dos resultados.
Embora os canabinoides sejam bem tolerados na maioria dos casos, seus efeitos adversos dose-dependentes, particularmente com THC, devem ser considerados para minimizar riscos em pacientes idosos. A prescrição desses medicamentos requer uma cuidadosa avaliação de riscos e benefícios, considerando as condições de saúde e vulnerabilidades individuais.
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