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Medicina de Família9 janeiro 2025

Qual o perfil de efeitos adversos de canabinoides em adultos mais velhos?

Estudo publicado na revista Age and Ageing avaliou diferenças nas taxas de incidência desses efeitos adversos em pacientes em uso de canabinoides com média de idade ≥ 50 anos
Por Renato Bergallo

Com o envelhecimento populacional, cresce o interesse e a necessidade de uso de medicamentos à base de canabinoides para condições clínicas diversas em idosos. Estudos vêm apontando os benefícios potenciais dos canabinoides tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) para analgesia, relaxamento muscular e distúrbios neurológicos. Contudo, os riscos associados às reações adversas nessa população permanecem incertos. Para ajudar a avaliar essa questão, um estudo publicado em 2024 na revista Age and Ageing, utilizou uma meta-análise para avaliar diferenças nas taxas de incidência desses efeitos adversos em pacientes em uso de canabinoides com média de idade ≥ 50 anos.

Os autores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise com base em 58 ensaios clínicos randomizados publicados entre 1990 e 2023. Foram incluídos estudos com canabinoides para qualquer indicação terapêutica em adultos mais velhos, excluindo-se aqueles focados no uso recreativo. Foram incluídos na análise 6.611 indivíduos (idade média: 50 a 87 anos, 50% homens), dos quais 3.450 receberam canabinoides contendo THC ou combinações THC + CBD.

Os principais desfechos incluíram eventos adversos gerais, eventos adversos relacionados ao tratamento, eventos adversos graves, descontinuação devido a eventos adversos e óbitos. As taxas de incidência de eventos foram expressas como diferenças de taxas de incidência (IRD) por 1.000 pessoas-ano, utilizando modelos de efeitos aleatórios.
Os resultados demonstraram taxas elevadas de eventos adversos associados ao uso de canabinoides contendo THC, isolado ou em combinação com CBD.

Veja mais: Cannabis e canabinoides em adultos com câncer: Diretriz da ASCO 

Para eventos adversos gerais, foram encontradas diferenças de taxa de incidência (IRD) de 18,83 para THC isolado (IC 95%, 1,47–55,79) e de 19,37 para combinação THC + CBD (IC 95%, 4,24–45,47). Já para eventos adversos relacionados ao tratamento, verificou se uma IRD de 16,35 para THC isolado (IC 95%, 1,25–48,56) e de 11,36 para combinação THC + CBD (IC 95%, 2,55–26,48). Eventos adversos graves e óbitos não apresentaram diferenças significativas em relação aos grupos de controle dos estudos revisados.
A revisão sistemática identificou os eventos adversos com incidência mais significativa, sendo eles: 

  • Tontura/sensação de “cabeça leve” (IRD: 0,819; IC 95%, 0,489–1,232); 
  • Sonolência (IRD: 0,684; IC 95%, 0,055–2,014); 
  • Distúrbios de dificuldades de mobilidade/equilíbrio/coordenação (IRD: 0,078; IC 95%, 0,006–0,234); 
  • Problemas dissociativos/de pensamento/percepção (IRD: 0,510; IC 95%, 0,260–0,844); 
  • Euforia (IRD: 9,117; IC 95%, 0,765–26,669). 
  • Boca seca (IRD: 1,059; IC 95%, 0,346–2,161). 

O estudo aponta que as taxas de eventos adversos aumentam de forma dose-dependente, especialmente para os eventos neurológicos e psiquiátricos.

Os achados indicam que os canabinoides são seguros para adultos mais velhos e idosos, mas o uso de produtos contendo THC exige precaução. Eventos como tontura e distúrbios de coordenação podem aumentar o risco de quedas, importantes causas de morbimortalidade nessa população. A relação dose-resposta identificada reforça a necessidade de monitoramento rigoroso e titulação cuidadosa das doses, especialmente em indivíduos com comorbidades.

Os resultados também destacam a ausência de dados robustos sobre doses específicas associadas a condições clínicas específicas, sugerindo a necessidade de mais estudos sobre o tema. Além disso, a heterogeneidade entre os estudos analisados na revisão limita a generalização dos resultados.

Embora os canabinoides sejam bem tolerados na maioria dos casos, seus efeitos adversos dose-dependentes, particularmente com THC, devem ser considerados para minimizar riscos em pacientes idosos. A prescrição desses medicamentos requer uma cuidadosa avaliação de riscos e benefícios, considerando as condições de saúde e vulnerabilidades individuais.

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