A Artroplastia total do quadril (ATQ) e a artroplastia total do joelho (ATJ) se tornaram cirurgias populares que com sucesso são utilizadas para o tratamento de quadros graves de osteoartrite refratária às medidas de tratamento não cirúrgico. Apesar dos avanços nos protocolos cirúrgicos e de reabilitação, complicações envolvendo eventos tromboembólicos (ET) ainda são uma preocupação envolvendo os pacientes e a equipe médica. Neste contexto o manejo envolvendo o controle de comorbidades e a suspensão de medicações no pré-operatório exige cautela .
O uso de terapia de reposição de estrogênio é comum em emulheres idosas submetidas a ATQ e ATJ, e pela preocupação acerca de um possível aumento na chance de ocorrência dos ET, é habitual a suspensão destas medicações nos pacientes que serão operados.
Um estudo recente publicado na revista científica “The Journal of Arthroplasty” em meio deste ano buscou avaliar se esta prática tem o suporte de evidências científicas.

Qual foi o objetivo do estudo?
O estudo foi conduzido na Califórnia com o objetivo de avaliar a relação entre o uso de TRE e o risco de tromboembolismo venoso (TEV) – incluindo trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar (EP) – após artroplastias totais de quadril (ATQ) e joelho (ATJ). Como objetivo secundário, o estudo avaliou a associação da TRE com outras complicações médicas graves no pós-operatório.
Como a pesquisa foi estruturada?
Trata-se de uma avaliação retrospectiva de uma grande base de dados norte americana (PearlDiver Mariner) envolvendo 893.759 cirurgias de ATQ e 1.660.909 ATJ realizadas entre 2015-2020. Foram incluídos no estudo 3.425 ATQ e 7.409 ATJ realizadas em mulheres com idade entre 55 e 70 anos que utilizaram TRE nos 90 dias anteriores e posteriores à cirurgia. Este grupo foi comparado com um grupo controle que não utilizava TRE pareado para idade, tabagismo, obesidade e diabetes.
Quais foram os resultados mais significativos?
Diferente do que seria esperado, o uso de TRE foi associado a um menor risco de complicações:
- Para a Artroplastia Total de Quadril:
- Redução de 48% no risco de TVP.
- Redução de 53% no risco de complicações médicas totais (como infarto agudo do miocárdio, pneumonia, sepse e insuficiência renal).
- Não houve diferença significativa no risco de embolia pulmonar.
- Para a Artroplastia Total de Joelho:
- Redução de 40% no risco de TVP.
- Redução de 44% no risco de embolia pulmonar.
- Redução de 47% no risco de complicações médicas totais.
O que esses achados podem mudar em nossa prática?
Esse estudo, um dos maiores já realizados sobre o tema, sugere que a terapia de reposição de estrogênio no período perioperatório pode, na verdade, exercer um efeito protetor contra eventos tromboembólicos e outras complicações médicas graves após artroplastias.
Embora sejam necessários mais estudos sobre este tema, as evidências encontradas sugerem que a suspensão da TRE antes da artroplastia deve ser repensada.
Conclusão
Esse estudo investiga o benefício de se suspender TER antes de uma artroplastia. Os dados indicam que o uso da terapia não apenas reduz o risco de complicações tromboembólicas, mas também pode estar associada a uma redução de morbidades pós-operatórias. Portanto, a interrupção rotineira da TRE pode não ser mais justificável, abrindo caminho para um manejo mais personalizado e baseado em evidências.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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