A literatura recente tem buscado reposicionar os fitoterápicos no manejo da Síndrome do Intestino Irritável (SII). Um artigo de revisão publicado no Nutrients em 2026 oferece o mais abrangente panorama atual sobre tratamentos derivados de plantas, integrando evidências clínicas, mecanismos de ação e recomendações de diretrizes. Mais do que listar achados, interessa ao pediatra compreender o que, de fato, é aplicável à prática diária, especialmente diante da pressão crescente das famílias por “opções naturais” e da necessidade de decisões fundamentadas em segurança e ciência.
O protagonismo do óleo de hortelã‑pimenta
A leitura crítica das evidências revela um protagonista inequívoco: o óleo de hortelã‑pimenta em cápsulas entéricas. É o único fitoterápico citado de forma consistente nas diretrizes internacionais, tanto para adultos quanto, de maneira mais cautelosa, para crianças e adolescentes. Sua ação multialvo atuando no músculo liso intestinal, na modulação de canais TRP, em vias analgésicas e até na microbiota parece explicar a maior reprodutibilidade dos resultados clínicos, algo raro na SII. Ensaios controlados demonstram melhora da dor abdominal e redução de sintomas globais, com perfil de segurança aceitável e efeitos adversos predominantemente leves.
Para a pediatria, isso importa. O documento conjunto da Sociedade Europeia e Norte-americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN/NASPGHAN) reconhece o óleo de hortelã‑pimenta como opção suplementar no tratamento, com recomendação condicional e evidência de baixa qualidade, reflexo mais da escassez de estudos pediátricos do que de falha terapêutica.

Iberogast e curcumina: promessas que ainda não se traduzem em recomendações
Outros extratos, como Iberogast, apresentam mecanismos de ação igualmente amplos e plausíveis reduzindo a hipersensibilidade visceral, modulando a inflamação e alterando a composição da microbiota. Estudos demonstram melhora sintomática modesta em adultos, e uma coorte observacional mostra boa tolerabilidade em crianças. Mas as diretrizes permanecem hesitantes: em países europeus e no México o Iberogast aparece como opção complementar; nas diretrizes norte-americanas, não é recomendado. A mensagem, portanto, é de prudência. Há potencial, mas ainda insuficiente para recomendação pediátrica padrão.
A curcumina, apesar de popular e biologicamente interessante, modulando 5‑HT, inflamação, microbiota e o eixo intestino‑cérebro, apresenta evidências clínicas fragmentadas e heterogêneas. Ensaios sugerem benefícios em adultos, mas a fragilidade metodológica e a ausência de estudos pediátricos tornam inviável sua recomendação formal para crianças.
A longa lista do “não recomendar”
A revisão também demonstra que nem tudo que é “natural” é necessariamente eficaz ou apropriado. Aloe vera, gengibre, Hypericum perforatum, flavonoides isolados de soja e própolis mostram resultados inconsistentes, com ensaios pequenos, contraditórios ou metodologicamente frágeis. Para o pediatra, o recado é claro: não há sustentação para o uso rotineiro desses agentes.
Mais contundente ainda: extratos como Curcuma xanthorrhiza, Fumaria officinalis e certas formulações ayurvédicas não demonstraram benefício frente ao placebo.
O que isso significa, afinal, para o pediatra brasileiro?
O pediatra lida diariamente com famílias em busca de alternativas “naturais”, muitas vezes com expectativas infladas por redes sociais e pelo mercado de suplementos. A boa notícia é que existe, sim, um fitoterápico com evidência razoável, segurança aceitável e respaldo internacional: o óleo de hortelã‑pimenta entérico.
Ainda assim, a SII em crianças continua a exigir uma abordagem integrativa centrada no comportamento e no eixo intestino–cérebro. Fitoterápicos, mesmo aqueles com evidência, devem ser apresentados como coadjuvantes e nunca como substitutos de educação, regularização da rotina intestinal, ajustes alimentares individualizados e manejo do estresse.
Autoria

Jôbert Neves
Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.