Em recém-nascidos muito prematuros (RNMP), a ingestão de proteínas tem efeitos duradouros no desenvolvimento cerebral. No entanto, não se sabe se esses efeitos estão associados à maturação cerebral melhorada ou prejudicada. O JAMA Network Open trouxe recentemente um estudo bastante promissor para avaliar a associação da ingestão de proteína após o parto muito prematuro com o volume cerebral e a microestrutura da substância branca no longo prazo, aos sete anos de idade. Veja uma síntese do estudo a seguir.
Metodologia
O estudo foi conduzido no National Women’s Hospital em Auckland, Nova Zelândia. A coleta de dados ocorreu de julho de 2012 a janeiro de 2016. Foram incluídas crianças com 7 anos de idade corrigida nascidas dentro desse período, com menos de 30 semanas de idade gestacional (IG) ou com um peso de nascimento (PN) inferior a 1500 g e que fossem cuidadas na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) (nível 3). Os critérios de exclusão foram: admissão na UTIN após 24 horas de vida, presença de malformação congênita grave, evidências de ultrassonografia de um grande infarto hemorrágico parenquimatoso, alta antes do dia 7 ou óbito antes dos 7 anos. A análise dos dados foi feita de janeiro de 2017 a março de 2024.
Uma mudança no protocolo nutricional da UTIN levou a um aumento da ingestão de proteínas pelos RNMP. Os bebês que nasceram antes dessa alteração (julho de 2005 a dezembro de 2006) estavam no grupo do protocolo antigo, enquanto aqueles que nasceram após a transição (janeiro de 2007 a outubro de 2008) estavam no grupo do protocolo novo. Os observadores eram cegos para o agrupamento dos participantes.
Aos 7 anos, as crianças eram submetidas a uma ressonância magnética (RNM) de crânio. As imagens não eram elegíveis para análise se houvesse anormalidades cerebrais clínicas ou movimento excessivo da cabeça.
Para cada bebê, foram calculadas todas as ingestões enterais e parenterais reais de proteína, gordura, energia e leite materno para os dias 1 a 7 e dias 1 a 14. Além disso, foi calculada a velocidade de crescimento até o dia 28 pós-natal.
Os desfechos pré-planejados foram comparações de grupo entre volumes cerebrais regionais e parâmetros de difusão dos principais tratos de substância branca. Também foram realizadas análises com ambos os grupos combinados, explorando associações de nutrição com métricas cerebrais.
Resultados
Foram incluídos 99 bebês:
- Grupo do protocolo antigo: n=42 (26 [55%] do sexo feminino; IG média [desvio-padrão – DP] ao nascer, 27 [2] semanas);
- Grupo do protocolo novo: n=57 (27 [47%] do sexo feminino; IG média [DP] ao nascer, 26 [2] semanas).
A ingestão de proteína foi diferente entre os dois grupos nos 7 dias após o nascimento:
- Grupo do protocolo antigo: ingestão média [DP], 17 [2] g/kg−1;
- Grupo do protocolo novo: ingestão média [DP], 21 [2] g/kg−1).
A ingestão de proteína também foi diferente nos dois grupos, 14 dias após o nascimento:
- Grupo do protocolo antigo: ingestão média [DP], 41 [6] g/kg−1;
- Grupo do protocolo novo: ingestão média [DP], 45 [7] g/kg−1).
O grupo do protocolo novo tinha menor volume cerebral como uma porcentagem do volume intracraniano do que o grupo do protocolo antigo (média [DP], 80% [4%] vs 86% [7%]), mas os volumes cerebrais absolutos eram semelhantes. Além disso, os bebês que receberam o protocolo novo apresentaram córtices occipitais laterais e parietais laterais significativamente mais finos do que os bebês que receberam o protocolo antigo. Considerando ambos os grupos combinados, aqueles com maior ingestão de proteína, gordura, energia e leite materno tinham métricas de tensor de difusão mais maduras (maior anisotropia fracionada e menos difusão) em vários tratos, apesar de que esse achado não mostrou significância estatística para todos os tratos.
Conclusão
Os bebês que receberam maior ingestão de proteína no período neonatal apresentaram um perfil mais maduro de métricas cerebrais avaliadas com imagens de RNM aos 7 anos e sugerem que essa maior quantidade pode promover a maturação cerebral de uma forma que ainda é observável aos 7 anos.
Comentário
Estudo bastante intrigante, com uma metodologia de difícil execução, mas bem delineada. Os resultados descritos reforçam a necessidade de um acompanhamento nutricional rigoroso em UTIN com a adoção de protocolos desenvolvidos conforme as necessidades alimentares de cada população.
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