A síndrome de Turner (ST) é uma condição genética que afeta meninas e mulheres, caracterizada pela perda total ou parcial de um dos cromossomos X. É uma das aneuploidias sexuais mais frequentes, com incidência aproximada de 1:2.500 nascimentos femininos vivos. Apesar disso, muitas pacientes ainda recebem o diagnóstico de forma tardia, o que limita intervenções precoces e impacta negativamente crescimento, desenvolvimento puberal, saúde cardiometabólica e qualidade de vida.
O pediatra exerce papel central no reconhecimento inicial da síndrome, no acompanhamento longitudinal e na coordenação do cuidado compartilhado com especialistas. O diagnóstico precoce e o seguimento estruturado ao longo da vida são determinantes para melhores desfechos clínicos e psicossociais.
Manifestações clínicas e impacto funcional da Síndrome de Turner
A apresentação clínica da síndrome de Turner é heterogênea e depende do tipo de alteração cromossômica, sendo a monossomia X (45,X) a forma clássica, embora o mosaicismo seja comum e muitas vezes apresente fenótipo mais sutil. A baixa estatura é o achado mais frequente, geralmente evidente desde a primeira infância, e deve sempre levantar suspeita diagnóstica quando associada a desaceleração da velocidade de crescimento.
Achados puberais e fenotípicos
A disgenesia gonadal leva à falência ovariana primária, com atraso puberal, ausência de puberdade espontânea e amenorreia primária. No período neonatal, podem estar presentes sinais como linfedema de mãos e pés, assim como características fenotípicas típicas, incluindo pescoço alado, implantação baixa da linha capilar posterior e tórax alargado.
Comorbidades e manifestações multissistêmicas
Além dos achados clássicos, a síndrome de Turner é uma condição multisistêmica. Entre as manifestações mais relevantes estão as cardiopatias congênitas, especialmente coarctação de aorta e válvula aórtica bicúspide, além de alterações renais estruturais, perda auditiva neurossensorial progressiva, distúrbios metabólicos, doenças autoimunes como hipotireoidismo e doença celíaca, e redução da densidade mineral óssea fazem parte do espectro clínico e exigem rastreio contínuo.
Qualidade de vida e repercussão psicossocial
As manifestações têm impactam significativo na qualidade de vida, sobretudo na adolescência e na transição para a vida adulta. Aspectos relacionados à estatura, puberdade, imagem corporal, fertilidade e interação social exigem atenção ativa do pediatra, mesmo quando não são explicitamente trazidos pela paciente ou família.
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Diagnóstico e avaliação inicial da Síndrome de Turner
O diagnóstico da ST pode ocorrer no período pré-natal, infância, adolescência ou mesmo na vida adulta. Na prática pediátrica, a suspeita clínica costuma surgir diante de baixa estatura inexplicada, atraso puberal ou associação de alterações clínicas sugestivas.
Confirmação diagnóstica da ST
A confirmação diagnóstica é feita por cariótipo por bandamento G, que permanece como padrão‑ouro para identificar monossomia X, mosaicismos e rearranjos estruturais. Métodos complementares, como FISH e microarray, podem ser úteis em casos selecionados, especialmente para melhor caracterização do mosaicismo.
Após a confirmação cromossômica, recomenda‑se uma avaliação inicial abrangente, incluindo exame cardiológico, ultrassonografia renal, avaliação auditiva, dosagens hormonais gonadotróficas, avaliação metabólica e análise da saúde óssea. Essa etapa é fundamental para estratificação de risco e planejamento adequado do seguimento.
Tratamento e seguimento longitudinal
O tratamento da ST deve ser individualizado e voltado para suas principais manifestações clínicas. O hormônio do crescimento é indicado precocemente, idealmente ainda na primeira infância, com o objetivo de melhorar a estatura final. Embora tenha efeito importante sobre o crescimento linear, o impacto isolado do GH sobre qualidade de vida é limitado, reforçando que o tratamento deve ir além da altura final.
Indução puberal e terapia hormonal
A indução puberal com estrogênio deve ser realizada no tempo adequado, respeitando idade cronológica e maturação óssea. Essa etapa é essencial para o desenvolvimento puberal, saúde óssea e bem‑estar psicossocial. Posteriormente, a progesterona é associada para proteção endometrial, mantendo‑se a terapia hormonal ao longo da vida adulta.
Rastreamento de comorbidades e fertilidade
O acompanhamento regular das comorbidades é fundamental. Avaliações cardiológicas seriadas, monitoramento metabólico, rastreio de alterações auditivas, tireoidianas, gastrointestinais e ósseas devem ser realizados independentemente da presença de sintomas. Em pacientes selecionadas, especialmente aquelas com mosaicismo e função ovariana residual, deve‑se discutir preservação de fertilidade.
Papel do pediatra geral no cuidado compartilhado
Mesmo quando há acompanhamento com endocrinologista e outros especialistas, o pediatra geral é peça‑chave no cuidado da paciente com síndrome de Turner. Cabe a ele coordenar o seguimento longitudinal, garantir que avaliações periódicas sejam realizadas, monitorar crescimento e desenvolvimento, reforçar adesão às terapias e atuar como ponto de apoio contínuo para a família.
Durante a adolescência, o pediatra desempenha papel crucial no suporte psicossocial, abordando temas como puberdade, fertilidade, sexualidade, imagem corporal e autonomia. Além disso, é fundamental garantir uma transição estruturada para o cuidado do adulto, evitando descontinuidade do acompanhamento, um dos principais fatores associados a piores desfechos na idade adulta.
Considerações finais
A síndrome de Turner é uma condição genética complexa e crônica, que exige cuidado contínuo e multidisciplinar ao longo de toda a vida. O diagnóstico precoce, a abordagem integrada das comorbidades e o suporte psicossocial estruturado são determinantes para melhores desfechos clínicos e qualidade de vida.
Mais do que tratar baixa estatura ou induzir puberdade, o cuidado da ST deve ser centrado na paciente, com acompanhamento próximo, coordenação entre níveis de atenção e participação ativa do pediatra geral em todas as fases do desenvolvimento.
Autoria

Jôbert Neves
Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).
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