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Pediatria17 novembro 2024

CBMI 2024: Hemocomponentes em pacientes pediátricos oncológicos

Confira os principais destaques da palestra "Uso racional de hemocomponentes no paciente oncológico", durante o CBMI 2024.
Por Roberta Castro

O painel “Oncologia” no XXIX Congresso Brasileiro de Medicina Intensiva (CBMI) 2024 abordou um tema muito relevante para a prática diária dos pediatras intensivistas. A Dra. Dafne Bourguignon (São Paulo/SP) ministrou a palestra “Uso racional de hemocomponentes no paciente oncológico”. Pontos de destaque da aula estão sintetizados a seguir. 

 

Uso profilático x uso terapêutico 

A Dra. Dafne destacou as seguintes abordagens com relação à transfusão de hemocomponentes: 

  • Uso terapêutico: em vigência de sangramento. 
  • Uso profilático: muitas vezes, a transfusão é indicada com base somente em valores do hemograma, sem considerar as condições clínicas do paciente (um uso “emocional” de quem prescreve). É importante sempre lembrar do uso racional dos hemocomponentes (Patient Blood Management). 

 

Patient Blood Management – uso racional dos hemocomponentes 

A palestrante chamou a atenção para este tópico, que consiste em uma abordagem sistemática, baseada em evidências e focada no paciente, visando melhor manejo e resultados destes, através do uso seguro e racional dos hemocomponentes. As estratégias consistem em EVITAR as transfusões dispensáveis e REDUZIR a espoliação recorrente e excessiva, por meio de um envolvimento multidisciplinar. Cada instituição deve ter suas rotinas e processos bem estabelecidos. A Dra. Dafne também enfatizou que as crianças têm maior risco de sangramento quando comparadas aos adultos (conforme o ensaio clínico randomizado de Josephson e colaboradores, 2012) e mostrou os graus de sangramento segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS): 

  • Grau 1:  
  • Petéquias/púrpuras localizadas em até 2 localizações, ou esparsas/não confluentes; 
  • Sangramento orofaríngeo, epistaxe com duração 30 minutos; 
  • Grau 2:  
  • Melena, hematêmese, hemoptise, presença de sangue vivo nas fezes;  
  • Epistaxe volumosa ou sangramento orofaríngeo com duração > 30 minutos; 
  • Sangramento oral que cause um grande desconforto; 
  • Petéquias/púrpuras difusas; 
  • Hematomas múltiplos com >2 cm cada ou único com >10cm; 
  • Hematúria visível; 
  • Sangramento anormal em local de punção ou procedimento invasivo; 
  • Sangramento vaginal inesperado com saturação de mais que 2 absorventes/24 horas; 
  • Sangramento visível em fluidos de cavidades; 
  • Sangramento de retina sem déficit visual. 
  • Grau 3: 
  • Sangramento com necessidade de transfusão de concentrado de hemácias nas últimas 24 horas e sem instabilidade hemodinâmica; 
  • Sangramento importante em fluidos de cavidades; 
  • Sangramento cerebral visível em tomografia sem sinais e sintomas neurológicos 
  • Grau 4: 
  • Sangramento debilitante incluindo sangramento de retina com déficit visual; 
  • Sangramento cerebral não fatal com sinais e sintomas neurológicos; 
  • Sangramento associado com instabilidade hemodinâmica (hipotensão, queda > 30 mmHg na pressão sistólica ou diastólica); 
  • Sangramento fatal de qualquer origem. 

 

Estudos mostrados pela Dra. Dafne: 

  • Lacroix e colaboradores (2007): Transfusion strategies for patients in pediatric intensive care units 
  • Ensaio clínico randomizado controlado em que foram avaliadas duas estratégias de transfusão de hemácias: restritiva (Hb ≤ 7g/dL) x liberal (Hb ≤ 9,5g/dL); 
  • Esse estudo mostrou que uma abordagem restritiva, com um limiar de hemoglobina de 7 g/dL, pode reduzir as necessidades de transfusão de hemácias sem aumentar os desfechos adversos em crianças graves estáveis. 

 

  • Steiner e colaboradores (2018): Recommendations on RBC Transfusion Support in Children With Hematologic and Oncologic Diagnoses From the Pediatric Critical Care Transfusion and Anemia Expertise Initiative 
  • Consenso de especialistas; 
  • Uma concentração de hemoglobina de  7-8 g/dL é recomendada para pacientes pediátricos com doença oncológica ou submetidos a transplante de células-tronco hematopoiéticas. 

 

  • Valentine e colaboradores (2018): Consensus Recommendations for RBC Transfusion Practice in Critically Ill Children From the Pediatric Critical Care Transfusion and Anemia Expertise Initiative 
  • Consenso de especialistas; 
  • Foi sugerida uma  concentração de hemoglobina de  7-8 g/dL para crianças graves com diagnóstico oncológico ou em risco de doença grave e hemodinamicamente estáveis. 

 

  • Mo e Delaney (2021): Transfusion in Pediatric Patients: Review of Evidence-Based Guidelines 
  • Revisão da literatura baseada em evidências; 
  • Plaquetas:  
  1. A maior parte das transfusões é feita PROFILATICAMENTE para pacientes para pacientes oncológicos e de TCTH; 
  1. Para procedimentos menores (biópsia de medula óssea, passagem de cateter venoso central, sem sangramento ou coagulopatia): 20 mil plaquetas (Association for the Advancement of Blood & Biotherapies [AABB] e American Society of Clinical Oncology [ASCO]); 
  1. Cirurgia não-neurológica, sem sangramento ou coagulopatia: 40-50 mil (AABB) ou 50 mil plaquetas (ASCO); 
  1. Coagulação intravascular disseminada [CIVD], neurocirurgia ou cirurgia oftalmológica: 75-100 mil plaquetas (British Guidelines); 
  1. Oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO): 100 mil plaquetas (circuito com heparina).  
  • Plasma: Os limiares de transfusão são controversos 
  1. Não deve ser dado para correção de coagulopatia leve a moderada, se não houver sangramento ou realização de procedimento invasivo (coagulopatia severa = INR > 2,5 e/ou TTPa > 60”). 
  • Crioprecipitado: Os limiares de transfusão são controversos 
  1. Os níveis de fibrinogênio recomendados variam de 100 mg/dL (tradicionalmente indicado para hipofibrinogenemia congênita) até 150 a 200 mg/dL para deficiência adquirida secundária cirurgia cardiovascular ou trauma. 

 

  • Nellis e colaboradores (2022): Executive Summary of Recommendations and Expert Consensus for Plasma and Platelet Transfusion Practice in Critically Ill Children: From the Transfusion and Anemia EXpertise Initiative—Control/Avoidance of Bleeding (TAXI-CAB) 
  • Em pacientes neonatais ou pediátricos gravemente enfermos oncológicos ou submetidos a transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH), não há evidências suficientes para fazer uma recomendação sobre indicações específicas ou estratégias de transfusão para direcionar a transfusão de plasma ou plaquetas; 
  • Em pacientes pediátricos gravemente enfermos oncológicos ou submetidos a TCTH, transfusões profiláticas de plaquetas podem ser consideradas para uma contagem de plaquetas < 10.000 mm³; 
  • Em pacientes pediátricos gravemente enfermos oncológicos ou submetidos a TCTH, transfusões terapêuticas de plaquetas podem ser consideradas para sangramento moderado ou grave;  
  • Em pacientes pediátricos gravemente enfermos oncológicos ou submetidos a TCTH, transfusões terapêuticas de plasma para coagulopatia menor (INR ≤ 1,5; aPTT ≤ 1,5) podem não ser benéficas, a menos que a cirurgia seja realizada em um estado crítico (órbita, cérebro, nervo facial, coluna vertebral, etc.). 

 

  • Carson e colaboradores (2023): Red Blood Cell Transfusion: 2023 AABB International Guidelines 
  • Recomendações para pacientes hospitalizados: 
  1. Adultos hemodinamicamente estáveis: estratégia restritiva (Hb 7); Hb 7,5 para cirurgia cardíaca Hb 7,5 e 8,0 para cirurgia ortopédica ou doença cardiovascular preexistente; 
  2. Adultos com doença onco hematológica: estratégia restritiva (Hb 7); 
  3. Crianças criticamente enfermas, sem hemoglobinopatia, cardiopatia cianótica ou hipoxemia severa: Hb 7; 
  4. Crianças hemodinamicamente estáveis, com cardiopatia congênita: Hb 7 (reparo biventricular); Hb 9 (ventrículo único) e Hb entre 7 e 9 (cardiopatia congênita não corrigida). 

 

Mensagens finais 

A Dra Dafne deixou as seguintes mensagens ao final de sua apresentação: 

  1. Plaqueta não é antibiótico, portanto, não deve ser prescrita de horário (a cada 8 ou 12 horas, por exemplo). Conforme folder da iniciativa “EducaSangue” mostrado na aula, “A transfusão de plaquetas deve ser baseada na contagem plaquetária do dia. Uma dose é geralmente suficiente”; 
  1. “Quem recebe a transfusão é o paciente e não o hemograma, de acordo com outro folder da iniciativa “EducaSangue”. 

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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