O congresso do American College of Physicians (ACP 2025), a “sociedade norteamericana de clínica médica”, é o maior congresso de medicina interna do mundo e conta com diversas palestras sobre temas fundamentais para o manejo de nossos pacientes, seja na atenção primária, em hospitais e até mesmo na prática do especialista. O congresso deste ano está acontecendo em New Orleans, nos Estados Unidos, e trazemos os destaques para cobertura aqui no portal.
Uma das palestras mais relevantes do dia foi a da Dra. Lauren , MD, cardiologista da universidade de Washington, acerca do manejo da dislipidemia de forma prática no consultório e sobre medidas além das estatinas. Como a própria introduziu, o objetivo da palestra não foi a cobertura completa do tratamento e avaliação da dislipidemia, uma vez que se trata de um tema muito amplo, mas sim trazer um enfoque no manejo prático da dislipidemia no consultório, além de discutir a respeito de assuntos comentados no tema e sobre terapias não baseadas em estatina.

Risco cardiovascular: quem precisamos tratar?
Na introdução da aula, a Dra. Lauren A. Weber destacou a importância da estratificação adequada do risco cardiovascular para orientar o manejo de lipídios, e apresentou duas ferramentas utilizadas para a avaliação de pacientes de prevenção primária: o escore ASCVD e a calculadora PREVENT.
O escore ASCVD de 10 anos foi inicialmente abordado como um recurso tradicional e familiar, utilizado para estimar o risco de eventos cardiovasculares em indivíduos assintomáticos. Contudo, a Dra. Weber apontou que esta ferramenta tende a superestimar o risco em adultos mais velhos, o que pode levar à introdução de terapias farmacológicas mesmo em situações onde o benefício absoluto é questionável. Ainda assim, ela ressaltou que o ASCVD permanece uma ferramenta válida para orientar decisões clínicas, desde que seus resultados sejam contextualizados.
Em seguida, foi apresentada a calculadora PREVENT, uma ferramenta mais recente que tem se mostrado útil pela inclusão de pacientes mais jovens e outros dados clínicos importantes como obesidade, status glicêmico e doença renal crônica (DRC). A PREVENT traz uma abordagem mais ampla e refinada para estimar o risco cardiovascular e, de acordo com a palestrante, gera escores de risco mais baixos quando comparada ao ASCVD, principalmente em pacientes mais velhos, além de trazer estimativas de risco em 10 e 30 anos. Essa diferença pode ter implicações práticas relevantes: pacientes que, segundo o ASCVD, estariam acima do limiar de 7,5% para início de estatinas, podem aparecer com risco inferior quando reavaliados com a PREVENT. A Dra. Weber sugeriu que, em pacientes com risco limítrofe, especialmente aqueles entre 5% e 20% de risco calculado, a PREVENT pode oferecer uma perspectiva mais precisa e realista do risco, evitando tanto o overtreatment quanto o undertreatment.
Começa o ACP 2025: o que será abordado?
Qual a meta no tratamento do risco cardiovascular?
No segmento seguinte, a palestrante abordou as metas terapêuticas trazidas nos últimos guidelines, sobretudo o da American Heart Association (AHA)/ACC. Para indivíduos de risco muito alto (doença cardiovascular estabelecida), o objetivo deve ser alcançar valores de LDL abaixo de 55 mg/dL. Já para indivíduos de risco alto (como os diabéticos ou os com escore ASCVD elevado, > 20%), o LDL-c deve ficar abaixo de 70 mg/dL. Indivíduos de risco moderado podem ser manejados com alvos menos agressivos, como LDL < 100 mg/dL (ASCVD < 7,5%). A terapia inicial sempre deve ser o uso de estatinas, de moderada intensidade (quando a meta for a redução < 30%) e alta intensidade se metas de redução de 50%. Caso não se alcance o objetivo, devemos adicionar outras terapias.
Para pacientes com doença cardiovascular estabelecida (prevenção secundária) ou LDL-c acima de 190 mg/dL, o tratamento deve ser iniciado independentemente do escore ASCVD, com estatinas de alta intensidade. O mesmo vale para indivíduos com ASCVD elevado (> 20%) e para diabéticos entre 40 e 75 anos, onde estatinas também são indicadas rotineiramente. Nos pacientes sem ASCVD ou diabetes, mas com risco calculado entre 7,5% e 20%, a decisão deve considerar fatores de risco adicionais. Exames auxiliares como o escore de cálcio coronariano podem auxiliar: um escore de cálcio de zero pode sugerir adiamento do tratamento, enquanto escores acima de 100 justificam início precoce.
Após início da terapia, a Dra. Weber recomendou reavaliar o perfil lipídico entre 6 e 12 semanas, observando a resposta e a adesão ao tratamento. Se as metas não forem atingidas, intensifica-se o tratamento, seja com titulação da estatina, seja com adição de outra classe medicamentosa.
Papel da ApoB e Lp(a): Avaliação Avançada de Risco
A Dra. Weber destacou o papel crescente de marcadores adicionais como ApoB e Lp(a) na avaliação de risco residual. A apolipoproteína B (ApoB), presente em todas as partículas aterogênicas, oferece uma medida direta da carga de partículas aterogênicas, sendo útil principalmente em pacientes com hipertrigliceridemia, síndrome metabólica ou discordância entre LDL-c e não-HDL. A lipoproteína(a), por sua vez, é uma lipoproteína geneticamente determinada associada a risco cardiovascular elevado. Apesar de não haver terapias amplamente disponíveis para reduzir a Lp(a), sua medição pode reclassificar o risco de pacientes intermediários, justificando terapias mais intensivas.
Além da Estatina: Estratégias Adicionais no Controle Lipídico
Já ao final da palestra, a Dra. Weber aprofundou-se nas opções terapêuticas disponíveis além das estatinas, essenciais em casos de intolerância ou necessidade de intensificação terapêutica:
- Ezetimiba: Inibe a absorção intestinal de colesterol, reduzindo o LDL-c em aproximadamente 18-20%. É a primeira opção a ser adicionada à estatina quando o alvo não é atingido.
- PCSK9-mAB (evolocumabe e alirocumabe): Antes chamados de inibidores de PCSK9, são anticorpos monoclonais que reduzem o LDL-c em até 60% e promovem redução significativa de eventos cardiovasculares. São indicados em prevenção secundária ou hipercolesterolemia familiar, quando estatinas e ezetimiba não são suficientes.
- Inclisiran (siRNA): Atua reduzindo a síntese hepática de PCSK9 com administração subcutânea semestral. Reduz o LDL-c em magnitude semelhante aos inibidores de PCSK9, com potencial benefício de adesão.
- Ácido bempedóico: Medicação oral que reduz LDL-c em até 18% e tem perfil favorável para pacientes intolerantes à estatina. Em prevenção secundária, mostrou redução de eventos cardiovasculares.
- EPA: Um derivado purificado de EPA (ácido eicosapentaenoico), utilizado especialmente em pacientes com triglicerídeos elevados e risco cardiovascular aumentado. Em pacientes com triglicerídeos entre 135 e 499 mg/dL, reduziu eventos cardiovasculares mesmo com LDL controlado.
Escolha Terapêutica em Pacientes Intolerantes à Estatina
A Dra. Weber finalizou com orientações práticas sobre como manejar pacientes com intolerância à estatina. Em prevenção primária, caso o LDL for > 190 mg/dL, a sequência sugerida é iniciar com ezetimiba ou PCSK-9-mAB ou inclisiran, seguida por ácido bempedoico, dependendo da disponibilidade e perfil do paciente. Se LDL <190, a ezetimiba deve ser a primeira opção, em sua visão. Já em prevenção secundária, onde a redução do risco absoluto é maior, a combinação de ezetimiba com inibidores de PCSK9 pode ser considerada precocemente, até mesmo de cara, ou um após o outro, escalonando de acordo com a resposta. Após, considerar o ácido bempedóico, como terapia adicional.
CONCLUSÕES
A palestra da Dra. Weber forneceu um panorama pragmático e atualizado sobre o manejo de dislipidemias com foco na prevenção de eventos cardiovasculares. O raciocínio clínico deve sempre partir da estratificação de risco e ter como meta intervenções personalizadas, associando modificações de estilo de vida à terapia farmacológica escalonada com estatinas e, quando necessário, com medicações adicionais. A busca ativa por metas terapêuticas bem definidas, o uso racional de exames complementares como ApoB e Lp(a), e o seguimento próximo dos pacientes são pilares para o sucesso do tratamento.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.