A edição de 2025 do congresso da American Diabetes Association (ADA) destacou avanços impressionantes no manejo do diabetes tipo 2 (DM2) e da obesidade. Uma das apresentações mais aguardadas foi o estudo REDEFINE-2, que trouxe resultados contundentes sobre a combinação de duas moléculas potentes e com mecanismos complementares: a cagrilintida, um análogo da amilina de longa ação, e a semaglutida, agonista do receptor de GLP-1, administrada por via subcutânea uma vez por semana, a CagriSema.
A razão deste estudo está enraizada no desafio de tratar o DM2 em pacientes com sobrepeso ou obesidade, uma realidade que afeta mais de 90% dos indivíduos com a doença, e vice versa, já que o tratamento da obesidade em pacientes com DM2 é muito mais complexo, com uma perda de peso cerca de 30% menor que em indivíduos sem DM. Perdas de peso mais substanciais, como acima de 10% do peso corporal, permanecem difíceis de alcançar com a maioria das intervenções disponíveis em pacientes com DM2, cuja fisiologia favorece o reganho de peso e o uso de medicações hiperglicemiantes (como sulfonilureias e tiazolidinedionas).
A cagrilintida age por meio do receptor da amilina e de seus receptores relacionados, modulando centros hipotalâmicos ligados à saciedade e ingestão alimentar. Já a semaglutida, agora já uma “velha conhecida”, além de aumentar a secreção de insulina e reduzir o glucagon de forma glicose-dependente, também atua no sistema nervoso central promovendo saciedade e redução da ingestão calórica. Com base em dados de seus estudos de fase 2, altamente promissores, a premissa do REDEFINE-2 foi justamente avaliar se a combinação dessas vias fisiológicas poderia gerar efeitos superiores à monoterapia com qualquer um dos agentes. O estudo também explorou desfechos metabólicos mais amplos, como melhora do controle glicêmico, pressão arterial, marcadores de qualidade de vida e, em subgrupo, o impacto na variabilidade glicêmica por meio de monitorização contínua da glicose (CGM). Devido à importância do tema, além da apresentação em destaque no terceiro dia do congresso da ADA 2025, o artigo também foi publicado no NEJM.
O ESTUDO
O REDEFINE-2 foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo de fase 3a, com duração de 68 semanas. Conduzido em 12 países de três continentes, incluiu 1206 adultos com diabetes tipo 2, HbA1c entre 7% e 10%, e índice de massa corporal (IMC) ≥ 27 kg/m². Todos os pacientes haviam falhado previamente em tentativas dietéticas para perda de peso.
A média de idade dos participantes foi de 56 anos, com ligeira maioria masculina (52,8%). A média de IMC era de 36,2 kg/m² e o peso corporal médio, 102,2 kg. A HbA1c média no início do estudo era de 8,0% e o tempo médio de diagnóstico de diabetes era de 8,5 anos. A amostra incluiu uma proporção relevante de indivíduos asiáticos (28,7%) e brancos (66%), com 85,9% em uso de metformina, 33,4% com iSGLT2 e 26,9% em uso de sulfonilureias.
Os pacientes foram randomizados na proporção 3:1 para receber a combinação semanal de cagrilintida 2,4 mg + semaglutida 2,4 mg ou placebo, ambos associados a orientações de estilo de vida. A titulação foi progressiva, com aumento de dose a cada 4 semanas até alcançar a dose-alvo após 16 semanas. O acompanhamento prosseguiu por 68 semanas (52 semanas em dose-alvo e 7 de seguimento).
O protocolo permitiu ajustes de dose diante de efeitos adversos, e as medicações antidiabéticas prévias puderam ser modificadas conforme julgamento do investigador. Um subgrupo nos EUA utilizou sensores de CGM para avaliação de variabilidade glicêmica.
Resultados
A perda de peso foi significativamente superior com a combinação comparada ao placebo. A perda de peso corporal (estimativa principal: treatment-policy estimand) reportada ao final do estudo foi:
– CagriSema: −13,7%
– Placebo: −3,4% (Diferença absoluta: −10,4% (p<0,001)
A proporção de pacientes que atingiram perdas superiores a 5, 10, 15 e 20%, foram:
– ≥5% de perda de peso: 83,6% vs. 30,8%
– ≥10%: 65,6% vs. 10,3%
– ≥15%: 43,8% vs. 2,4%
– ≥20%: 22,9% vs. 0,5%
Também houve uma redução de circunferência abdominal foi de 11,9 cm no grupo ativo vs. 3,6 cm no placebo. Uma diferença para os estudos da tirzepatida, por exemplo, não houve o reporte estratificado por doses menores.
CONTROLE GLICÊMICO E OUTROS DESFECHOS METABÓLICOS
O impacto no controle glicêmico também foi expressivo. A redução média da HbA1c foi de −1,8%mno grupo CagriSema vs. −0,4% com placebo. Além disso, 73,5% dos participantes atingiram HbA1c ≤ 6,5% (vs. 15,9% no placebo), com melhora paralela nos níveis de glicemia de jejum também.
Um grande destaque foi o subgrupo com uso do CGM. O tempo em faixa-alvo (70–180 mg/dL) aumentou de 43,6% para 86,8%, enquanto no grupo placebo esse aumento foi de 41,3% para apenas 50,2%. O tempo em hipoglicemia (<70 mg/dL) foi <1% em ambos os grupos, demonstrando excelente segurança glicêmica mesmo com níveis de HbA1c muito baixos.
A pressão arterial sistólica caiu em média 6,5 mmHg com CagriSema (vs. 2,4 mmHg com placebo), e houve melhora de marcadores inflamatórios (como PCR) e perfis lipídicos. Também se observou melhora clinicamente relevante na qualidade de vida e função física, sobretudo entre aqueles que já apresentavam limitação funcional na linha de base.
SEGURANÇA
Os eventos adversos foram mais frequentes no grupo CagriSema (90,2% vs. 85,4%), com predomínio de efeitos gastrointestinais leves a moderados, como náuseas (mais prevalentes na fase de titulação), vômitos e constipação. Apesar disso, a taxa de descontinuação por eventos adversos foi relativamente baixa: 8,4% vs. 3,0%.
Foram relatados três casos de pancreatite e quatro mortes no grupo ativo (suicídio, câncer pancreático, morte súbita e outra causa não cardiovascular). A taxa de hipoglicemia grave (nível 3) foi de apenas 0,2%, exclusivamente em usuários de sulfonilureia.
Conclusão e mensagem prática
O REDEFINE-2 é um estudo que redefine o potencial terapêutico para o paciente com diabetes tipo 2 e obesidade. A magnitude da perda de peso observada com a CagriSema foi notável, superando o que geralmente se observa com a semaglutida isoladamente nessa população. Vale lembrar que pessoas com DM2 tendem a perder menos peso que indivíduos sem diabetes, em função de múltiplas barreiras fisiológicas e farmacológicas.
Em comparação com estudos prévios com a semaglutida isolada (ainda que não tenha sido realizada uma comparação direta, head to head, neste estudo), a CagriSema se mostra superior para o tratamento da obesidade em pacientes com DM, atingindo níveis de perda de peso equiparáveis aos da tirzepatida 10 mg (–12.8%) ou 15 mg (–14.7%) para esta população.
Além da perda ponderal, a combinação promoveu controle glicêmico potente com baixa incidência de hipoglicemia, mesmo em pacientes que usavam sulfonilureias. Os dados de CGM corroboram a segurança e eficácia no dia a dia.
Em um cenário onde agentes como tirzepatida já são considerados padrão ouro, o REDEFINE-2 mostra que há espaço para alternativas inovadoras e eficazes — inclusive com mecanismos diferentes. A CagriSema surge como mais uma opção de “primeira prateleira” para o tratamento de pacientes com DM2 e obesidade.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
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