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Ginecologia e Obstetrícia7 agosto 2025

SLAMS 2025: Highlights do Simpósio Febrasgo sobre Desejo Sexual Hipoativo

O desejo sexual hipoativo (DSH) é altamente prevalente, afetando mais da metade das mulheres na América Latina.
Por Sérgio Okano

O desejo sexual hipoativo (DSH) é altamente prevalente, afetando mais da metade das mulheres na América Latina. Ele é caracterizado pela diminuição do desejo sexual, seja ele espontâneo ou reativo, associado a cronicidade e sofrimento clínico. 

Em uma das mesas apresentadas no XVIII Congresso da Sociedade Latino-Americana de Medicina Sexual (SLAMS 2025), a Dra. Lúcia Lara discutiu sobre os desafios da prescrição de testosterona (T) no manejo do DSH. Sabe-se que, na menopausa, há uma redução de até 55% nos níveis de testosterona total e até 77% na DHEAS em comparação ao período do menacme. Evidências sugerem uma possível associação positiva entre desejo e frequência sexual com os níveis de testosterona dessas mulheres (Maserei & Vignozzzi, 2022). A prescrição de testosterona está indicada no tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa, seja clínica ou cirúrgica. Segundo Islam et al. (2019), a testosterona melhora o desejo sexual, inclusive de forma independente da associação com o estrogênio (E2), além de aumentar a frequência de eventos sexuais. 

O objetivo da terapêutica é elevar os níveis séricos de testosterona para cerca de 300 ng/dL (Krapf & Simon, 2017, Menopause), ajustando-se a posologia de acordo com o veículo utilizado: absorção de 50–68% com Pentravan e de 9–14% com veículos alcoólicos. A Febrasgo recomenda a prescrição de 1 a 2 g de testosterona base em 1g de Pentravan, ou 3 a 5 mg por 1 g veículo alcoólico. A monitorização deve incluir dosagem basal, uma nova aferição após 4 semanas do início da terapia e, depois, a cada 3 meses (Vignozzi, 2022). 

Em seguida, a Dra. Sandra Scalco apresentou outras abordagens terapêuticas, baseadas no modelo do ciclo de resposta sexual e em tratamentos farmacológicos além da testosterona. O ISSWSH (International Society for the Study of Women’s Sexual Health) recomenda uma abordagem centrada na pessoa, com identificação de fatores causais e promoção da educação em sexualidade. Intervenções diversas podem impactar positivamente a neuroplasticidade do desejo, incluindo a ressignificação do prazer e da resposta sexual, mudanças no estilo de vida, promoção do diálogo entre o casal e exercícios de focagem sensorial. É fundamental afastar fatores psicossociais, como distorções de autoimagem, depressão e histórico de violência. 

Entre as opções terapêuticas, destacou-se a tibolona, com aumento de até 25% no desejo, além de medicações ainda não disponíveis no Brasil, como flibanserina e bremelanotida. A bupropiona também pode ser considerada, seja como antídoto para medicações que afetam negativamente o desejo, seja por substituição. Terapias vaginais podem reduzir a dor durante a relação, melhorando, secundariamente, o desejo sexual. A Dra. Scalco reforçou que há ausência de evidência científica de qualidade e segurança no uso de implantes hormonais com esse fim, mencionando o papel da farmacovigilância. 

Veja também: Uma nova perspectiva para o tratamento da desordem do desejo sexual hipoativo

Cobertura SLAMS 2025

Fitoterapia no tratamento do DSH 

A Dra. Fabiene Vale abordou a fitoterapia no tratamento do DSH. Uma revisão sistemática (Jurado et al., 2020) identificou efeitos positivos do uso de Tribulus terrestris (TT) no desejo sexual. Seu principal componente ativo, a protodioscina, estimula a liberação de LH na hipófise, aumentando os níveis de testosterona em mulheres no menacme e promovendo a conversão em DHT, além de elevar a produção de óxido nítrico (NO) no endotélio. Em mulheres na pós-menopausa, ensaios clínicos randomizados (de Souza, 2016; Vale, 2018) identificaram melhora no desejo, excitação, orgasmo e lubrificação. A posologia sugerida é de 280 mg de Tribulus terrestris por noite (contendo 112 mg de protodioscina), após o jantar, visando melhor absorção linfática. 

Novas medicações antiobesogênicas e o desejo sexual 

Por fim, a Profa. Carmita Abdo discutiu o impacto das novas medicações antiobesogênicas sobre o desejo sexual. A obesidade ainda carrega estigma e preconceito no Brasil, e sua prevalência vem crescendo. Estudos mostram que cerca de 80% dos genes relacionados ao ganho de peso atuam no cérebro, o que explica a tendência do corpo em recuperar o peso perdido. Segundo Saadedine et al. (2024), embora a relação entre obesidade e disfunção sexual feminina (DSF) seja controversa, a perda de peso está associada à melhora da função sexual em mulheres obesas. Agonistas do receptor GLP-1 promovem saciedade e estimulam a produção de insulina; entretanto, seus efeitos sobre o desejo sexual ainda são incertos. Dados mais consistentes vêm de estudos em animais, que sugerem um mecanismo relacionado ao excesso de serotonina, o que justificaria, por plausibilidade biológica, impactos sobre o desejo. A professora concluiu que a obesidade está associada a alterações metabólicas, e que a perda de peso e a melhora da autoimagem podem favorecer a produção hormonal e a sensibilidade à insulina, fatores esses que impactam positivamente a libido. Por outro lado, os efeitos adversos gastrointestinais, o mal-estar e o estresse envolvidos no tratamento da obesidade podem prejudicar a resposta sexual. 

Sobre o SLAMS 2025 

O XVIII Congresso da Sociedade Latino-Americana de Medicina Sexual (SLAMS 2025) ocorre entre os dias 7 e 9 de agosto/2025, em São Paulo/SP. O evento apresenta um programa científico intenso, interessante e atual que propõe discussões sobre disfunção sexual, tratamento cirúrgico de doenças sexuais, identidade de gênero e orientação sexual, saúde psicossexual e questões globais de saúde relacionadas à sexualidade humana. 

Acompanhe a cobertura completa do Congresso da Sociedade Latino-Americana de Medicina Sexual ( SLAMS 2025) aqui no Portal Afya!

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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