O envelhecimento é uma realidade demográfica no Brasil. Com isso, cada vez mais ganha importância o entendimento e o impacto do diabetes tipo 2 na população idosa, onde é fundamental compreendermos outras características e comorbidades individuais, que se incluem, mas não se limitam, à fragilidade, múltiplas comorbidades, polifarmácia, risco de quedas, declínio cognitivo, perda funcional e vulnerabilidade nutricional. A diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Diabetes traz uma revisão atualizada acerca das evidências e melhores recomendações nacionais, especialmente nesse grupo, propondo um manejo que coloca a preservação da autonomia e da qualidade de vida no centro da estratégia, sem ignorar a necessidade de prevenir complicações micro e macrovasculares.
O posicionamento reconhece que idosos com diabetes representam um desafio pela heterogeneidade clínica. Há desde indivíduos robustos, ativos e independentes, que se beneficiam de metas glicêmicas semelhantes às dos mais jovens, até idosos frágeis, dependentes e com expectativa de vida reduzida, em que metas mais flexíveis são justificáveis. A SBD propõe, portanto, uma abordagem graduada, orientada pelo estado funcional, pelo risco cardiorrenal e pela segurança terapêutica. Pelas diferenças na abordagem sugeridas para esta população especial, trazemos esse capítulo do guideline atualizado da SBD para discussão aqui no Portal Afya.
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A diretriz
A diretriz estabelece que a definição da meta de HbA1c no idoso deve respeitar a heterogeneidade dessa população:
- Idosos robustos: meta de HbA1c < 7,5%. Quanto mais robusto, mais semelhante à população geral a meta pode ser, com o objetivo de reduzir complicações microvasculares e manter benefício de “memória metabólica”. A meta de glicemia de jejum deve ser 80-130 mg/dL e 2h pós prandiais < 180 mg/dL.
- Idosos frágeis, com múltiplas comorbidades, risco de hipoglicemia elevado ou expectativa de vida limitada: metas mais flexíveis (7,5–8,0%), priorizando segurança e bem-estar. A meta de glicemia de jejum deve ser 90-150 mg/dL e 2h pós prandial < 180 mg/dL.
- Idosos muito comprometidos (com doenças terminais ou em fase final de vida): Evitar hipoglicemias e hiperglicemias capazes de gerar sintomas, focando também na qualidade de vida. A meta é manter a glicemia de jejum entre 100 e 180 mg/dL e pós prandial < 180 mg/dL.
A SBD também enfatiza a necessidade da avaliação geriátrica ampla, que inclui cognição, funcionalidade, risco de quedas, estado nutricional e suporte social. Essas dimensões, muitas vezes negligenciadas, são determinantes para a escolha da terapia e para a definição da intensidade do tratamento.
Outro pilar central é a valorização dos fármacos com benefício cardiorrenal comprovado, os chamados AD1 (iSGLT2 e agonistas de GLP-1), desde que o estado clínico permita seu uso. Mas, diferentemente do adulto jovem, o idoso exige cautela quanto aos efeitos adversos: risco de desidratação e infecção urinária com iSGLT2; perda ponderal excessiva com GLP-1 em indivíduos sarcopênicos ou desnutridos. Assim, a escolha do fármaco deve equilibrar benefício prognóstico e segurança individual, como abordaremos a seguir.
Síndromes geriátricas e o diabetes
A diretriz destaca que o diabetes no idoso deve ser entendido à luz de síndromes geriátricas que modificam tanto a apresentação clínica quanto a resposta ao tratamento. Logo, é fundamental a avaliação de cada uma das seguintes síndromes:
- Fragilidade: estado de vulnerabilidade caracterizado por perda de massa muscular, baixa reserva fisiológica e maior risco de hospitalização e mortalidade.
- Sarcopenia: perda de massa e força muscular, frequentemente associada à desnutrição, com impacto direto sobre mobilidade e risco de quedas.
- Declínio cognitivo e demência: hipoglicemias repetidas e controle glicêmico inadequado podem acelerar perda cognitiva. A simplificação terapêutica nesses casos é mandatória.
- Risco de quedas: hipoglicemias, hipotensão ortostática e polifarmácia aumentam risco de fraturas e perda funcional.
- Polifarmácia: comum em idosos com múltiplas comorbidades, aumenta risco de interações medicamentosas e de adesão inadequada.
- Desnutrição: tanto pela perda de apetite quanto por efeitos adversos de algumas medicações (como GLP-1), deve ser monitorada e corrigida ativamente.
O tratamento farmacológico na prática clínica
A metformina continua sendo a base do tratamento, desde que a função renal esteja preservada (TFGe >30 mL/min) e o paciente apresente um IMC adequado, visto o risco de perda ponderal em indivíduos sarcopênicos. É bem tolerada, segura em longo prazo e, no idoso robusto, segue como primeira escolha.
As sulfonilureias permanecem disponíveis, mas a diretriz restringe seu uso a segundas ou terceiras opções. A gliclazida é a preferida por associar-se a menor risco de hipoglicemia, ainda que essa classe, como um todo, seja vista com cautela no idoso devido ao risco de eventos hipoglicêmicos graves, que podem precipitar quedas, fraturas e declínio cognitivo.
A pioglitazona é opção para determinados perfis, sobretudo quando há resistência insulínica marcada, mas sua utilização é limitada pelo risco de retenção hídrica, edema e insuficiência cardíaca — condições comuns no idoso. Vale lembrar que, apesar de não ser formalmente contraindicada em indivíduos com osteoporose, a pioglitazona também está associada a maior risco de perda de massa óssea.
Os inibidores de DPP-4 se destacam como alternativas seguras em idosos frágeis e/ou de baixo peso, pois apresentam perfil neutro em relação ao peso corporal, baixo risco de hipoglicemia e boa tolerabilidade gastrointestinal. Apesar de sua eficácia baixa/moderada, podem ser opções excelentes para idosos, sobretudo naqueles com IMC < 22 kg/m² e HbA1c em níveis discretamente elevados.
Os inibidores de SGLT2 são importantes em idosos com doença cardiovascular, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, mas a diretriz ressalta a importância da vigilância clínica devido ao risco de desidratação, infecção urinária e genital. Além disso, devemos atentar também ao IMC pelo mesmo motivo da metformina, ainda que a perda de peso induzida por esta classe seja baixa.
Os agonistas do receptor de GLP-1, por sua vez, são indicados em idosos com sobrepeso ou obesidade, pela capacidade de promover perda ponderal significativa e benefício cardiovascular. Entretanto, em idosos frágeis, desnutridos ou sarcopênicos, seu uso deve ser ponderado, pois a perda de peso pode acelerar o declínio funcional.
A insulinoterapia é reservada para quadros com HbA1c > 10% ou hiperglicemia sintomática, descompensação aguda ou falha terapêutica em esquemas múltiplos não insulínicos. No idoso, a recomendação é adotar regimes simplificados, evitando esquemas intensivos que aumentem risco de hipoglicemia e complexidade de manejo. A coformulação insulina/GLP-1 aparece como alternativa valiosa, pois simplifica regimes e atenua ganho de peso e risco de hipoglicemia. Contudo, as mesmas considerações para o uso isolado dos agonistas de GLP-1 devem ser lembradas.
Organizando o raciocínio no cuidado do paciente idoso
1) Idoso com HbA1c ≤ 10%:
- IMC < 22 kg/m²: Preferir iniciar com iDPP-4 ou insulina basal; 2ª escolha: Gliclazida ou metformina em doses baixas, com atenção ao peso e hipoglicemias. Se metas não atingidas, associar iDPP-4 com insulina ou gliclazida
- IMC ≥ 22 kg/m²: Metformina ou iDPP-4; como 2ª escolha os demais, como iSGLT-2, aGLP-1 se IMC ≥ 27 kg/m² ou outras opções.
2) Idoso com HbA1c > 10%: Insulinoterapia. Sempre lembrar da possibilidade de descalonamento para antidiabéticos orais caso melhora do controle.
Novo guideline da Endocrine Society para diabetes pré-existente na gestação
Como esta nova diretriz pode influenciar a nossa prática médica
A SBD 2025 em sua diretriz sobre o manejo do DM no idoso chama a nossa atenção para a preservação funcional do indivíduo, o equilíbrio entre risco e benefício e a adequação da terapia ao contexto clínico. Para o endocrinologista, isso significa integrar HbA1c, IMC, risco cardiorrenal e presença de síndromes geriátricas no processo decisório.
A diretriz também legitima escolhas que, por vezes, já eram feitas na prática: flexibilizar metas em idosos frágeis, evitar polifarmácia de forma desnecessária, simplificar esquemas insulínicos e individualizar uso de fármacos conforme perfil nutricional. Ao mesmo tempo, somos lembrados de não subestimar a importância de se manter metas mais rigorosas em idosos robustos.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.
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