A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, mais conhecida como CID, é uma das principais ferramentas epidemiológica do cotidiano médico. A principal função da CID é monitorar a incidência e prevalência de doenças, através de uma padronização universal de enfermidades, problemas de saúde pública, sinais e sintomas, queixas, causas externas para ferimentos e circunstâncias sociais, apresentando um panorama amplo da situação em saúde dos países e suas populações.
A 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), adotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a partir de janeiro de 2022, foi projetada para ser totalmente digital e acessível online e tem prazo previsto para ser disponibilizada nos sistemas de vigilância em saúde no Brasil a partir de janeiro de 2027.
A nova versão pretende refletir os avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas, possibilitando uma codificação mais detalhada e integrada aos sistemas digitais de saúde.

O que é a CID-11?
A CID-11 é o sistema de codificação criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para registrar, classificar e monitorar doenças, lesões e causas de morte em escala global. Aprovada em 2019, a nova versão foi desenvolvida para acompanhar a complexidade clínica contemporânea e substituir progressivamente a CID-10.
A 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças incorpora os avanços científicos e tecnológicos da medicina moderna, permitindo uma codificação mais detalhada, digital e integrada aos sistemas de saúde, o que amplia a precisão dos registros, facilita a interoperabilidade entre bases de dados e fortalece a vigilância epidemiológica e a gestão do cuidado.
Para que serve a CID, afinal?
Em um sistema de saúde, as informações precisam ser registradas de forma que possam ser reutilizadas tanto para fins coletivos, como vigilância epidemiológica, planejamento e alocação de recursos, quanto para usos individuais, como documentação clínica, apoio à decisão e processos de financiamento e reembolso.
Nesse contexto, a CID-11 funciona como uma linguagem padronizada que transforma diagnósticos e outros problemas de saúde em códigos alfanuméricos, permitindo o arquivamento, a recuperação e a análise dos dados. Com maior nível de detalhamento, a nova versão possibilita o registro de doenças raras, condições clínicas específicas e intervenções de forma mais precisa.
Ao padronizar a comunicação entre profissionais, gestores e países, ela facilita a comparação de informações em diferentes serviços e regiões, fortalecendo a assistência, a pesquisa, a gestão e o monitoramento da saúde da população.
Quando a CID-11 entra em vigor?
A CID-11 entrou oficialmente em vigor no mundo em 1º de janeiro de 2022, conforme estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, a adoção depende do cronograma de cada país, que precisa considerar etapas como tradução, capacitação dos profissionais e atualização dos sistemas de informação em saúde. O prazo máximo definido para sua adoção oficial no país é janeiro de 2027.
No Brasil, em 2024, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) concluíram a tradução para a língua portuguesa. Desde então, o Ministério da Saúde vem conduzindo um processo de implantação gradual, que inclui a adaptação dos sistemas nacionais de informação, a formação de profissionais e a revisão de normas técnicas. Até a conclusão dessa transição, a CID-10 permanece como a versão vigente, enquanto o país avança na preparação para a nova classificação.
Como acessar a CID-11?
A CID-11 é totalmente digital e de acesso público e pode ser consultada diretamente no site da Organização Mundial da Saúde (OMS). A classificação está disponível em duas versões oficiais: uma em inglês, lançada inicialmente com todos os códigos e ferramentas interativas de navegação; e outra em português, já traduzida e publicada pela própria OMS, facilitando a consulta por profissionais e instituições brasileiras.
Quais são as principais mudanças na CID-11?
Pela primeira vez, a Classificação Internacional de Doenças foi oficialmente traduzida para a língua portuguesa. A CID-11 é mais precisa, flexível e abrangente e reúne cerca de 17 mil códigos únicos para lesões, doenças e condições de saúde, que, combinados, permitem descrever aproximadamente 1,6 milhão de situações clínicas.
Entre as principais mudanças, a nova revisão reorganizou áreas importantes da medicina. Os transtornos do sono passaram a compor um capítulo próprio, assim como as doenças hematológicas e as condições relacionadas ao sistema imunológico.
Além do aumento no número de códigos, a CID-11 incorporou novos capítulos, como o de saúde sexual, e incluiu classificações inéditas, entre elas o gaming disorder (transtorno por jogos eletrônicos) e a síndrome de burnout, associada a fatores ocupacionais. A versão também atualiza categorias como o transtorno de estresse pós-traumático e amplia a abordagem sobre resistência antimicrobiana, entre outras inovações que refletem a prática clínica contemporânea.
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CID-11 em formato digital
A CID-11 foi desenvolvida para uso direto em ambiente digital, com design voltado para sistemas eletrônicos de saúde, suporte multilíngue e ferramentas que permitem busca, codificação e integração com registros eletrônicos de saúde.
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CID-11 reconhece vício em jogos eletrônicos (gaming disorder)
Uma das mudanças importantes na CID-11 é a inclusão do distúrbio por jogos eletrônicos (gaming disorder) como uma condição que pode causar dependência comportamental. Essa categoria permite que profissionais de saúde mental identifiquem e registrem de forma padronizada quadros em que o uso persistente ou recorrente de jogos eletrônicos compromete significativamente a vida pessoal, social e ocupacional do paciente.
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Resistência antimicrobiana no CID-11
Nesta nova revisão, os códigos relativos à resistência antimicrobiana foram expandidos e realinhados para melhor acompanhamento da condição. Essa mudança facilita o monitoramento dos padrões de resistência a medicamentos pelos sistemas de vigilância.
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Burnout na CID-11 é doença ocupacional
A síndrome de burnout foi incluída na CID-11 como uma condição relacionada ao contexto do trabalho, caracterizada por exaustão física e mental, sentimentos de esgotamento e impactos funcionais associados ao emprego.
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CID 11: Incongruência de gênero (Transexualidade)
Na CID-11, a incongruência de gênero foi reclassificada dentro do capítulo de condições relacionadas à saúde sexual, deixando de ser considerada um transtorno mental. Essa mudança reflete a compreensão atual de que a vivência transgênero não constitui um problema de saúde mental e ajuda a reduzir o estigma associado a essas condições.
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Reclassificação do autismo (TEA) na CID-11
Outra mudança significativa é a reestruturação dos diagnósticos relacionados ao espectro do autismo. Condições que antes eram listadas separadamente na CID-10 como autismo infantil, síndrome de Asperger e transtorno desintegrativo da infância agora são agrupadas sob o diagnóstico unificado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
Como a CID-11 está estruturada?
A CID-11 mantém a lógica alfanumérica das versões anteriores, mas foi ampliada e reorganizada para oferecer uma estrutura mais detalhada e adaptada aos avanços clínicos e tecnológicos atuais. Os códigos são formados por combinações de letras e números e distribuídos em capítulos que agrupam doenças, lesões e condições de saúde por sistemas do corpo ou áreas médicas específicas, incluindo novos temas como transtornos do sono, doenças do sistema imunológico e condições de saúde sexual.
No total, reúne cerca de 17 mil códigos únicos que, combinados com termos adicionais, permitem descrever diversas situações clínicas de forma precisa e integrada aos sistemas digitais de informação em saúde.
Por que é preciso atualizar a CID?
A atualização da CID é necessária para que a classificação acompanhe os avanços da ciência, as mudanças na prática médica e as inovações em tecnologia de informação em saúde. Novas doenças, abordagens terapêuticas, métodos diagnósticos e necessidades de registro epidemiológico exigem uma classificação mais detalhada e flexível.
A CID-11 foi projetada para refletir esse contexto moderno, facilitando a codificação e a análise de dados clínicos, epidemiológicos e administrativos, além de permitir que diferentes países, serviços e profissionais “falem a mesma língua” ao registrar e monitorar problemas de saúde.
CID na rotina médica: mais precisão, menos erros
A adoção da CID-11 representa um avanço estratégico para a medicina e para a gestão em saúde. Desenvolvida para funcionar principalmente em ambientes digitais, a nova classificação amplia a precisão dos registros, melhora a operabilidade com prontuários eletrônicos e reduz falhas de codificação que impactam tanto o cuidado ao paciente quanto os processos administrativos.
Na rotina médica, isso se traduz em documentação mais clara, comunicação mais eficiente entre profissionais, instituições e operadoras, além de maior confiabilidade para vigilância epidemiológica, financiamento e tomada de decisão clínica. Ao incorporar a complexidade da medicina contemporânea, a CID-11 permite que diagnósticos, condições associadas e contextos clínicos sejam descritos com mais fidelidade.
Por isso, compreender e se preparar para essa transição é fundamental. Mais do que aprender novos códigos, médicos e gestores passam a operar com uma linguagem comum, moderna e integrada aos sistemas de saúde.
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Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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