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Medicina de Família26 outubro 2020

Você sabe quais são os 4 Princípios da Medicina de Família e Comunidade?

O Médico de Família e Comunidade (MFC) deve possuir amplo conhecimento clínico, na medida em que atende pacientes com enfermidades diversas.
Por Renato Bergallo

O Médico de Família e Comunidade (MFC) deve possuir amplo conhecimento clínico, na medida em que atende pacientes independente de sua idade, gênero ou tipo de doença que possui. Atuando na Atenção Primária à Saúde (APS), ele deve ser capaz de resolver a maior parte dos problemas de saúde que chegam a ele, encaminhando e coordenando o cuidado daqueles casos que necessitarem de atendimentos em outros pontos do sistema de saúde. Para atuar com qualidade, o MFC necessita de conhecimentos específicos e experiência, norteados por 4 princípios fundamentais que devem estar incorporados à sua prática.

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Médico de Família e Comunidade atendendo paciente

Princípio I: O Médico de Família e Comunidade é um clínico qualificado

A alta variabilidade de problemas de saúde que se apresentam na APS, que é a porta de entrada para o sistema de saúde, exige o conhecimento técnico do MFC sobre partes de várias especialidades. Para isso, o MFC precisa estar atualizado sobre os protocolos e mais recentes conhecimentos científicos de cada uma delas, principalmente a respeito dos problemas de saúde mais prevalentes em sua prática.

O MFC deve saber interpretar e traduzir as queixas e sintomas apresentados pelos pacientes, muitas vezes ainda em estágios indiferenciados em termos de diagnóstico, diferenciando aquelas mais urgentes ou mais graves das mais comuns, utilizando as ferramentas disponíveis na APS, como a longitudinalidade e a demora permitida.

É preciso atuar com a Medicina Baseada em Evidências, adaptando suas condutas aos recursos disponíveis e aos respectivos contextos individuais (psicológicos, sociais e ocupacionais), familiares e comunitários, sem deixar de levar em consideração as ideias, preocupações e expectativas do paciente.

Princípio II: A atuação do Médico de Família e Comunidade é influenciada pela comunidade

Os fatores da comunidade onde o MFC atua devem moldar sua prática, de modo que ele possa responder às necessidades dessa população. Deve estar preparado para lidar com as características da situação de saúde que essa comunidade apresenta, bem como as mudanças que podem ocorrer nela, adaptando-se quando necessário. O contexto onde a população mora e trabalha de acordo com aspectos ambientais e sociais do território e as condições de saúde mais frequentes devem guiar a prática do MFC. De mesmo modo, é importante que se conheça profundamente as doenças mais raras que possam acometer significativamente as pessoas dessa comunidade.

A organização da agenda do MFC deve buscar ampliar o acesso oportuno, inclusive para pacientes com demandas agudas ou que procuram atendimento no mesmo dia. Uma das estratégias possíveis é o acesso avançado, ou agenda aberta, que reserva maior espaço para essas demandas. Entretanto, esse não é o único modelo de organização da agenda, e sua adoção deve considerar também a longitudinalidade do cuidado, as demandas programadas, as características da população adscrita e a capacidade da equipe. Os atendimentos não programados também podem representar uma oportunidade para fortalecer o vínculo, realizar ações de promoção e prevenção em saúde e ampliar o conhecimento sobre as necessidades da população da comunidade.

O MFC deve atuar como coordenador do cuidado e colaborar para a construção da rede de cuidado da comunidade sob sua responsabilidade, através de recursos sociais e do território, intersetoriais e na própria rede de saúde. É preciso conhecer as referências no sistema de saúde e os principais benefícios sociais disponíveis.

Princípio III: O Médico de Família e Comunidade é o recurso de uma população definida

Para manter a disponibilidade e a resolutividade da atenção prestada pelo médico de família e comunidade (MFC), é importante que o número de pessoas sob responsabilidade sanitária da equipe seja compatível com sua capacidade de acompanhamento. Atualmente, o Ministério da Saúde adota parâmetros populacionais diferentes conforme o porte do município, para fins de vinculação às equipes de Saúde da Família (eSF). Em municípios com até 20 mil habitantes, o parâmetro é de 2 mil pessoas por equipe; entre 20.001 e 50 mil habitantes, de 2,5 mil; entre 50.001 e 100 mil habitantes, de 2,75 mil; e, em municípios com mais de 100 mil habitantes, de 3 mil pessoas por eSF. Esses parâmetros foram estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 3.493/2024, no contexto da nova metodologia de cofinanciamento federal da Atenção Primária à Saúde.

É necessário o estabelecimento de uma relação de vínculo, confiança, harmonia e empatia entre o MFC e seus pacientes para garantir adesão e bons resultados nas intervenções e tratamentos de saúde. O tratamento de cada paciente deve ser personalizado e humano, através do entendimento do significado de cada problema de saúde para cada paciente e adaptando a conduta a esses fatores. Assim, deve-se construir propostas terapêuticas pactuadas e construídas em conjunto com os pacientes.

O MFC deve gerir sua lista de pacientes entendendo sua população como “grupos de risco” e realizando ações direcionadas de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação em saúde de acordo com as características da população. É importante planejar as suas intervenções de saúde, reavaliando a sua eficácia e necessidade de acordo com resultados ao longo do tempo.

Assumindo a responsabilidade sobre essa população definida, o MFC deve atuar como coordenador do cuidado, referenciando o paciente, quando necessário, a outros pontos do sistema de saúde. Além disso, deve atuar evitando danos e intervenções desnecessárias a partir da própria prática médica, realizando a prevenção quaternária.

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Princípio IV: A relação médico-pessoa é fundamental para o desempenho do Médico de Família e Comunidade

A relação entre o MFC e seu paciente deve ser caracterizada pela compaixão, paciência, compreensão e honestidade. Entender que a experiência do adoecimento varia de pessoa para pessoa, valorizando a forma como cada paciente se sente a respeito da condição que traz é essencial para bons resultados no acompanhamento. A história de vida, a personalidade e o contexto onde cada um está inserido repercutem fortemente na maneira como cada um enxerga sua doença. O MFC deve compreender isso e levar em consideração na sua conduta. É essencial a utilização do Método Clínico Centrado na Pessoa e de habilidades de comunicação para garantir uma boa relação médico-pessoa.

O acompanhamento das pessoas pelo MFC ao longo do tempo possibilita um maior conhecimento do médico a respeito de seu paciente, com maior efetividade e acurácia nas ações de intervenção e proximidade e confiança nas interações no consultório. A longitudinalidade possibilita que o conhecimento a respeito de cada paciente se desenvolva e solidifique ao longo do tempo.

É ideal que o MFC atue como advogado de seus pacientes, defendendo a saúde e os interesses dos pacientes sob sua responsabilidade, construindo uma relação de confiança e até de amizade. Essa relação é muitas vezes caracterizada pelos pacientes como ponto de apoio por si só para seus problemas, podendo ser responsável até, parcialmente ou totalmente, pela melhora de quadros apresentados.

Este infográfico foi gerado com auxílio de Inteligência Artificial e validado pela equipe editorial do Portal Afya.

*Este conteúdo foi atualizado em: 05/10/2026 pela equipe editorial médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Renato Bergallo

Renato Bergallo

Editor-chefe médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com residência médica em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Administração em Saúde pela mesma instituição. Possui mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz). Além da atuação na Afya, é professor do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística e da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) e fundador e consultor da healthtech Cuidata.

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