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Terapia Intensiva13 janeiro 2025

Intervenções de baixo valor na UTI

Revisão de dados provenientes de UTIs avaliou intervenções que possam frear a adoção de cuidados de baixo valor em UTIs
Por Julia Vargas

Algumas práticas profundamente arraigadas no cotidiano das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), que em um primeiro momento parecem refletir a excelência de cuidado, quando avaliadas sobre o escrutínio da Medicina Baseada em Evidências, perdem a sua sustentação. 

A incapacidade de algumas intervenções em gerar benefícios concretos aos pacientes, além de submetê-los a riscos desnecessários e se associarem ao desperdício de recursos e elevação dos custos em saúde, tornam a temática um objeto de importante reflexão.  

Nessa perspectiva, foi realizada uma revisão de dados provenientes de UTIs de países desenvolvidos, como Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e França, com o propósito de avaliar intervenções que possam frear a adoção de cuidados de baixo valor em UTIs. 

 

Quais foram os principais cuidados de baixo valor elencados? 

Exames de sangue de rotina 

A coleta rotineira de amostras de sangue no paciente crítico, incluindo hemograma, bioquímica e gasometria arterial, está associada à piora da experiência álgica e incremento do risco de anemia diagnóstica.    

Radiografia de tórax de rotina 

A maioria das radiografias realizadas em UTI não resulta em mudança de conduta, e acaba por gerar exposição desnecessária à radiação e incremento dos custos. Uma alternativa é a ampliação do uso da ultrassonografia à beira leito (POCUS) entre os pacientes em ventilação mecânica.  

Profilaxia universal de lesão aguda de mucosa gastroduodenal 

As principais indicações de profilaxia de úlceras de estresse estão relacionadas ao alto risco de sangramento, como trombocitopenia grave (< 50.000/mm³), coagulopatia (RNI > 1,5 ou PTTa ratio > 2), choque ou doença hepática crônica avançada. Foram dessas indicações, a prescrição de terapia de supressão ácida deve ser a exceção, e não a regra. 

Transfusão não criteriosa de hemoderivados 

As estratégias transfusionais restritivas, com alvo de hemoglobina > 7 g/dL, são superiores às liberais na maioria dos cenários clínicos avaliados.  

Resultados 

A revisão incluiu 32 estudos que avaliaram intervenções dedicadas à redução de realização de: 

  • Exames de sangue de rotina (13 estudos);  
  • Radiografias de tórax de rotina (10 estudos); 
  • E outras práticas de baixo valor (9 estudos). 

 

Que intervenções foram utilizadas? 
Educação, capacitação e campanhas de conscientização  Treinamento de equipes multiprofissionais, incluindo médicos, enfermeiros e outros profissionais, a fim de melhorar a percepção sobre os cuidados de baixo valor e promover a tomada de decisões clínicas mais criteriosas. 

Movimentos institucionais ou nacionais auxiliam na promoção da cultura do “menos é mais”, sendo um dos exemplos as campanhas como “Choosing Wisely” para disseminar a ideia de minimizar os cuidados de baixo valor. 

Diretrizes e protocolos baseados em evidências Implementação de protocolos clínicos claros para restringir as práticas de baixo valor, fornecendo orientações para limitar os exames e intervenções desnecessárias. 
Feedback e auditorias Monitoramento das práticas da UTI, com retorno periódico às equipes, avaliando a adesão às intervenções e reforçando as mudanças de comportamento. 
Alterações nos sistemas de pedido eletrônico e adoção de Checklists 

 

Ajustes em sistemas eletrônicos para restringir os pedidos automáticos de exames e incentivar uma revisão crítica antes de solicitá-los 
Contenção de danos 

 

A redução do volume de tubos de coleta de sangue é um exemplo clássico que permite minimizar a anemia diagnóstica.  
Incentivos Financeiros 

 

Aplicação de incentivos para reduzir práticas de baixo valor, beneficiando as UTIs que adotam intervenções mais racionais. 

 

Notou-se a redução significativa dos cuidados de baixo valor na maioria dos estudos, sem impactar negativamente na saúde dos doentes críticos. Em alguns casos, observou-se ainda melhora de algumas métricas de UTI, como demanda por ventilação mecânica e redução do tempo de permanência na unidade.  

Conclusões 

  • A análise crítica sobre as condutas rotineiras arraigadas nas UTIs permite evidenciar um grande desperdício de recursos e exposição a propedêuticas exageradas, como exames de sangue seriados, radiografias de tórax diárias e profilaxia universal de lesão aguda de mucosa gastroduodenal.  
  • O processo de educação médica continuada, baseada em evidências, é o grande esteio para a promoção das necessárias mudanças, apesar de enfrentar um desafio árduo de lidar com práticas que foram, por décadas, o modus operandi  do cuidado intensivo. Ainda assim, as intervenções dedicadas à redução dos cuidados de baixo valor em UTIs têm se mostrado seguras e eficazes, com o potencial de trazer benefícios individuais aos pacientes, além de impactos positivos sob a esfera econômica e ambiental 
  • As principais limitações dos estudos incluídos na presente revisão foram a análise exclusiva de desfechos imediatos e a contemplação exclusiva de países desenvolvidos, fato que limita a generalização dos achados.  

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Referências bibliográficas

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