A obesidade é definida como índice de massa corporal (IMC) acima de 30 kg/m2 e está cada vez mais prevalente no mundo, chegando a 30%-50% da população dependendo da região analisada. Portanto, veremos o aumento da proporção de pacientes obesos internando na UTI com uma miríade de problemas, incluindo insuficiência respiratória aguda. Mas a aplicação de ventilação mecânica (VM) tem peculiaridades na população obesa, e a não observação dos detalhes pode acarretar aumento de complicações/morbidade. A boa notícia é que pacientes com aumento leve a moderado de IMC apresentam mortalidade semelhante à população com peso normal ou sobrepeso (pesquisadores chamam de paradoxo prognóstico da obesidade).
Destaques da revisão:
Fisiopatologia: a obesidade reduz os volumes pulmonares (como a capacidade residual funcional) e também a complacência da parede torácica, com elevação de pressão pleural; atelectasias, desequilíbrio na relação ventilação-perfusão e disfunção do ventrículo direito são mais comuns; pode haver aumento de pressão intra-abdominal que exacerba uma possível disfunção do diafragma; pacientes obesos também apresentam elevação crônica de marcadores inflamatórios, que pode aumentar a susceptibilidade para SARA;
Manuseio das vias aéreas: pacientes obesos apresentam maior risco de dessaturação rápida e intubação difícil devido a fatores anatômicos e fisiológicos; pré-oxigenação com pressão positiva (VNI ou CNAF) e o uso de videolaringoscopia como primeira linha são recomendados para aumentar a segurança no acesso à via aérea;
Volume Corrente: deve ser calculado com base no peso corporal ideal, e não no peso real, para evitar lesão pulmonar induzida pelo ventilador;
PEEP: níveis mais elevados são frequentemente necessários para neutralizar a pressão pleural elevada e prevenir o fechamento das vias aéreas;
“Driving pressure” (pressão platô menos PEEP): não abusar do uso da diferença de pressões, porque pode haver superestimação do estresse pulmonar real devido à elevação da pressão da parede torácica no tecido pulmonar; o uso de pressão esofágica (para calcular a pressão transpulmonar) e tomografia de impedância elétrica podem auxiliar na individualização do manejo;
Alvos de Oxigenação: deve-se buscar oxigenação adequada (SatO₂ entre 92% e 98%) com o ajuste da PEEP antes de aumentar a fração inspirada de oxigênio (FiO₂), da mesma forma que pacientes não-obesos; obesos podem apresentar níveis de PaCO₂ um pouco maiores que não-obesos, por conta de hipoventilação alveolar crônica;
Posição Prona: também deve ser usada em casos de SARA com troca gasosa menor que 150-180, apesar de mais difícil de se aplicar (atenção para lesões por pressão);
Bloqueio Neuromuscular: deve ser usado nos pacientes com troca gasosa menor que 100-150, principalmente quando se mantém hipoxemia apesar de controle da ventilação com sedativos, mas os relaxantes musculares podem acumular em tecido adiposo que resulta em maior meia-vida;
ECMO: a obesidade não é mais considerada uma contraindicação absoluta; resultados de sobrevivência são comparáveis aos de pacientes sem obesidade;
Desmame da VM: testes de respiração espontânea (TRE) podem ser realizados com suporte de pressão ou tubo T. O uso de VNI profilática por pelo menos ~ 12 horas nas primeiras 24 horas após a extubação pode reduzir o risco de reintubação e mortalidade nesta população;
Perguntas para pesquisas: há necessidade de estudos sobre titulação de PEEP individualizada e o impacto de novas terapias de perda de peso (como agonistas de GLP-1) na mecânica respiratória.
Veja também: O que o anestesiologista precisa saber na intubação traqueal no paciente obeso?
Mensagens para o dia-a-dia:
- Em pacientes obesos, volumes pulmonares reduzidos e pressão pleural elevada aumentam o risco de atelectasias, hipoxemia e injúria pulmonar induzida pela VM, requerendo estratégias ventilatórias específicas;
- O volume corrente deve ser indexado pelo peso corporal ideal, e a PEEP precisa ser individualizada, já que as pressões de vias aéreas podem superestimar o “stress” pulmonar por causa da complacência reduzida da parede torácica:
- A maioria das recomendações são extrapoladas de pacientes gerais, não-obesos e de estudos experimentais, o que torna urgente a realização de trabalhos clínicos específicos na população obesa.
Autoria

André Japiassú
Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.
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