A terapia nutricional é um componente essencial no manejo de pacientes críticos, pois está associada a melhores desfechos clínicos. A perda de massa muscular é comum nesses pacientes e pode resultar em fraqueza, maior tempo de hospitalização e pior qualidade de vida. Embora a nutrição enteral (NE) contínua seja o método mais utilizado em UTIs, há evidências sugerindo que a administração intermitente pode melhorar a síntese proteica e reduzir o catabolismo. No entanto, ainda há incertezas sobre qual modo de administração é superior em termos de alcance das metas nutricionais, tolerabilidade e complicações.
A nutrição enteral contínua é frequentemente associada a uma menor taxa de mortalidade em comparação com a nutrição intermitente, embora a evidência seja fraca. Além disso, a alimentação contínua pode aumentar o risco de constipação. Por outro lado, a nutrição intermitente pode ser mais eficaz para atingir rapidamente as metas nutricionais, mas está associada a uma maior incidência de diarreia.
Estudos também indicam que a nutrição intermitente pode melhorar a síntese de proteínas musculares e a secreção hormonal normal, além de facilitar a obtenção das metas nutricionais. No entanto, não há diferenças significativas em termos de intolerância gastrointestinal, como volumes gástricos residuais elevados, entre os dois métodos.
Um ensaio clínico randomizado, prospectivo e unicêntrico de Ondrej Hrdy et al teve como objetivo comparar os efeitos da nutrição enteral contínua (NEC) e intermitente (NEI) na velocidade de alcance da meta energética, na tolerância alimentar e na incidência de complicações em pacientes críticos. No total, 300 pacientes foram randomizados, sendo 294 analisados (148 no grupo NEC e 146 no grupo NEI).
Leia mais: Droga vasopressora e nutrição enteral na terapia intensiva: o que é preciso saber?
Resultados
- O grupo NEI atingiu a meta energética significativamente mais rápido do que o grupo NEC (p = 0.009).
- Não houve diferença significativa entre os grupos quanto à meta proteica (p = 0.129).
- A incidência de diarreia foi maior no grupo NEI (11% vs. 4.7%, p = 0.049).
- Não houve diferenças significativas entre os grupos na incidência de PAV (12.2% vs. 12.3%, p = 0.965) ou na mortalidade em 28 dias (31.1% vs. 27.4%, p = 0.488).
- O tempo de internação na UTI e no hospital foi semelhante entre os grupos.
Os achados indicam que a NEI permite um alcance mais rápido da meta energética em comparação à NEC. No entanto, isso não se traduziu em diferenças na meta proteica ou em desfechos clínicos relevantes, como mortalidade ou tempo de internação. O principal efeito adverso da NEI foi um aumento na incidência de diarreia, possivelmente devido a estímulos mecânicos e hormonais que aceleram o trânsito gastrointestinal.
Aplicabilidade Clínica
A NEI pode ser considerada uma estratégia viável para acelerar o alcance das metas energéticas em pacientes críticos, sem aumentar a incidência de complicações graves, como pneumonia ou mortalidade. No entanto, seu uso deve ser ponderado caso a caso, especialmente devido à maior incidência de diarreia. Mais estudos são necessários para avaliar os impactos metabólicos e funcionais dessa abordagem em desfechos clínicos de maior relevância, como preservação de massa muscular e recuperação funcional dos pacientes críticos.
Portanto, a escolha entre nutrição enteral contínua e intermitente deve ser baseada nas necessidades individuais do paciente, considerando fatores como tolerância gastrointestinal, metas nutricionais e preferências clínicas.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.