O uso precoce de oxigenoterapia suplementar (O2) tem sido recomendado na abordagem de pacientes graves vítimas de traumatismo.
O uso liberal do O2, entretanto, ao induzir hiperóxia e maior exposição a espécies reativas de oxigênio, pode agravar o processo inflamatório respiratório e sistêmico, contribuindo para o incremento da mortalidade.
A lesão pulmonar induzida por hiperóxia conta com vários mecanismos: alteração da composição do surfactante pulmonar, redução do processo de depuração mucociliar e propensão à formação de atelectasias. Logo, pode implicar em diminuição da complacência pulmonar e aumento do risco de infecções.
Já sob o aspecto hemodinâmico, a hiperóxia atua como um estímulo vasoconstritor, reduzindo o fluxo sanguíneo coronariano e o débito cardíaco, além de comprometer a perfusão da microvasculatura.
Diante do exposto, as diretrizes recomendam, em geral, o uso conservador do O2, com alvo de pressão parcial dentro de uma faixa fisiológica (a fórmula mais conhecida da PaO2 esperada para a idade é a seguinte: 109 – 0,43 x idade). Contudo, a estratégia liberal ainda poderia ser útil em condições específicas, como no traumatismo crânio-encefálico (TCE) grave.
O estudo TRAUMOX2 comparou a estratégia de O2 restritiva (alvo de SpO2 de 94%) e liberal (O2 em máscara facial não reinalante entre 12 a 15 L/min entre os pacientes não intubados ou FiO₂ entre 60% e 100% entre aqueles em ventilação mecânica com alvo de SpO2 ≥ 98%) nas primeiras 8 horas do traumatismo.
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Metodologia
Trata-se de um ensaio clínico randomizado (RCT), multicêntrico e conduzido entre dezembro/2021 e setembro/2023.
Foram incluídos quase 2.000 pacientes vítimas de traumatismo atendidos no ambiente pré-hospitalar ou em centros de traumatologia da Dinamarca, Suíça e Países Baixos, sendo acompanhados por um período de 30 dias.
Os critérios de inclusão foram idade maior ou igual a 18 anos, traumatismo contuso ou penetrante, transferência direta da cena do acidente para um dos centros de trauma participantes e expectativa de internação hospitalar de pelo menos 24 horas.
O desfecho primário foi uma combinação de morte e/ou complicações respiratórias graves, como pneumonia ou síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
Resultados
A incidência do desfecho primário foi semelhante entre os grupos (Restritivo: 16,1% vs Liberal: 16,7%). Não houve diferença significativa nas taxas de mortalidade (8,6% vs 7,3%) ou complicações respiratórias (8,9% vs 10,8%). No entanto, a incidência de atelectasia foi menor no grupo restritivo (27,6% vs 34,7%).
Conclusões e mensagens práticas
- A estratégia restritiva de oxigenoterapia entre pacientes graves vítimas de traumatismo parece ser tão eficaz quanto a estratégia liberal, com o potencial de reduzir as complicações respiratórias graves. No entanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar esses achados e determinar a estratégia ideal de oxigenação nesse cenário clínico.
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