Quedas são tema crítico na saúde da população, já que um em cada três adultos. Idosos experimentam pelo menos uma queda anualmente. As quedas após altas hospitalares são ainda mais comuns. As razões para que isso aconteça são a perda muscular rápida depois de uma internação, fraqueza e perda de capacidade física significativa, e possivelmente perda cognitiva e alteração de consciência após uma doença grave. Sobreviventes de doenças críticas experimentam perda óssea, fadiga e dor, e aumentam o risco de fraturas por fragilidade. Existem trabalhos na literatura que reportam quedas e danos provenientes destas quedas até um mês ou anos após a alta hospitalar.
Neste trabalho, os autores estudaram a incidência de quedas após internação em UTI em até um ano depois da alta hospitalar e também pesquisaram o fatores de riscos associados a estas quedas.
Métodos
Foi um trabalho de coorte prospectiva de um hospital na qual o CTI internava pacientes clínicos, cirúrgicos e de trauma. O recrutamento aconteceu entre início de 2017 e final de 2019. Pacientes adultos que precisaram de ventilação mecânica invasiva por pelo menos dois dias e tiveram estadias na UTI Por mais de quatro dias, foram excluídos pacientes com condições neurológicas debilitantes ou que sofreram cirurgias de amputação de membros inferiores em até 3 meses durante a internação hospitalar; também se excluiu pacientes que tinham histórico de quedas antes da internação na UTI.
O objetivo primário foi calcular a incidência de quedas durante um período de um ano após a auto hospitalar. As quedas foram classificadas de acordo com o grau de dano ou injúria segunda classificação de Schwenck que vai de 1 a 4, sendo:
- aquela queda que não causou nenhum dano;
- queda menor que causou a brasões ou hematomas que resultou na função física reduzida ou receio de outras quedas que durou por pelo menos três dias, mas não precisou de atendimento médico;
- queda moderada, na qual precisou de exame do profissional de saúde e também exames complementares como radiografias ou suturas para ferimentos cutâneos;
- queda grave na qual houve fratura ou lesão craniana ou interna que precisou de atendimento de emergência ou hospitalização.
Os pacientes foram avaliados de acordo com a sua função sensitiva e motora com o testes de força muscular em quadríceps e tibial anterior usando dinamômetro. Os pacientes também realizaram a bateria de performance física curta e tiveram seu equilíbrio avaliado através do teste MINIBestTest. A função cognitiva foi avaliada pelo escore de acesso cognitivo de Montreal, assim como a escala de depressão e ansiedade hospitalar e sintomas de desordem de estresse pós-traumático. A qualidade de vida após a auto hospitalar foi medida de acordo com o escore Euro QoL 5 dimensões. A escala de atividades diárias de Katz e o número de medicações usadas no momento da alta também foram anotados e por fim, um escore de fraqueza muscular em UTI, delírio e função física também foram realizados na saída da UTI.

Resultados
O total de 100 pacientes foram selecionados. Houve perda de follow-up de 4 pacientes, ficando 96 para análise. A idade média era de 59 anos, e um terço dos pacientes eram do sexo feminino; 42% tiveram diagnóstico de fraqueza neuromuscular associada a UTI e quase 60% dos pacientes tiveram alta para seu domicílio. As principais diferenças entre pacientes que caíram pelo menos uma vez daqueles que não tiveram queda eram:
- sexo feminino;
- maior número de comorbidades;
- maior número de medicações no momento da auto hospitalar;
- necessidade de transferência para instituição de reabilitação antes da chegada em domicílio.
Os autores dividiram as comparações das diferenças demográficas e clínicas dos participantes que caíram (62%) versus aqueles que não caíram (38%) e também a comparação que foi feita entre pacientes que caíram 0-1 vez (50%) versus pacientes que caíram 2 ou mais ocasiões (50%). Um detalhe interessante foi que pacientes que eram casados ou tinham companheiros tinham uma chance menor de cair por mais vezes do que aqueles que não tinham companhia. Outras características importantes foram maior tempo de hospitalização nos pacientes que caíram e também o maior número de medicações no momento da alta. Foram cerca de 10 medicações para pacientes que caíram contra 7 naqueles pacientes que não apresentaram queda.
Alguns testes realizados no momento da alta do paciente também foram bem diferentes entre pacientes que caíram, como por exemplo deficiências na sensibilidade e força muscular em quadríceps e músculos tibiais anteriores, maior tempo de marcha de 4 metros, maior tempo para realizar o teste up-and-go e maior incidência de desordem de estresse pós-traumático. Fatores cognitivos de ansiedade e depressão não foram diferentes entre pacientes que tiveram quedas ou não tiveram quedas.
O número total de quedas foi de 360 com 44, ou seja, 12% sendo quedas moderadas a graves no grupo inteiro. A incidência de quedas foi de 4,4 por pessoa/ano. O tempo médio para a primeira queda foi de 36 dias e a maior incidência de quedas ocorreu durante os primeiros 3 meses depois da alta hospitalar. Mais da metade das quedas ocorreu no domicílio e a causa mais comum de queda foi a perda do equilíbrio em 130 eventos, seguindo por fadiga ou fraqueza em 84 eventos. Quase metade das quedas ocorreu durante uma caminhada (44%) e 33% das quedas ocorreram durante uma mudança de posição, seja de deitado para sentado ou sentado para ficar em pé (n=117 ocasiões). 50% das quedas causou algum dano, sendo 137 não graves, 31 moderados e 13 graves. Esses eventos graves foram fraturas, rupturas de ligamentos ou músculos que precisaram de hospitalização e laceração ou feridas que precisaram de atendimento emergencial. Ao todo 24% dos pacientes tiveram pelo menos uma queda moderada ou grave (1 em cada 4 sobreviventes).
Mensagens para o dia a dia
- As quedas são comuns após alta de pacientes sobreviventes de UTI, ocorrendo com incidência de 4,4 pacientes/ano, e 1 em cada 9 pacientes que caem apresentam lesões que podem levar à reinternação;
- Fatores de risco modificáveis para evitar quedas foram identificados como uma menor capacidade funcional no momento da alta e o maior número de medicações.
Autoria

André Japiassú
Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.
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