Na série especial “Histórias de Cuidado: Relacionamento médico-paciente”, compartilhamos relatos de médicos sobre casos que vivenciaram em sua rotina e como lidaram com cada situação de forma gentil e empática.
O objetivo é explorar a Medicina sob uma perspectiva mais subjetiva, revelando as nuances do cuidado com o paciente.
Boa leitura!
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Caso de hoje
Relato de quando estava na residência de CM:
O dia estava cheio, manhã repleta de visitas aos pacientes da enfermaria, de tarde com atendimentos no ambulatório e, à noite, o plantão médico, conforme escala da residência.
Aquele era o meu primeiro ano de residência médica e que já estava se aproximando do fim. Um misto de alívio por saber que o segundo ano seria um pouco mais tranquilo, mas também de ansiedade por saber que seria um ano de muito estudo a ser dedicado para a nova prova de residência da subespecialidade clínica.
Muitos pacientes já haviam cruzado o meu caminho e muitas amizades foram feitas com os colegas da residência. Estava sendo um ano intenso e sinestésico rodeado de muito trabalho, aprendizado, receios e desafios.
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Na enfermaria de Cuidados Paliativos…
A rodada da vez era a enfermaria de Cuidados Paliativos, em que se aprende muito sobre pacientes com doenças terminais e como confortá-los em sua fase final de vida.
Sob intensa sobrecarga emocional, a “capa de médica” deveria se manter resistente ao entrar na enfermaria e ajudá-los a amenizar o sofrimento.
Entretanto, ao longo de quase um mês de enfermaria, um paciente foi cativando seu coração. Tratava-se do L.R.M., senhor de 87 anos, aposentado, trabalhava com jardinagem.
Vinha enfrentando a batalha diária contra um câncer de pulmão avassalador decorrente de longos anos de tabagismo pesado. Estava há quase dois meses hospitalizado, aparentemente aguardando o momento de sua passagem. Sempre ao seu lado, estava sua esposa, que tentava oferecer todo tipo de conforto possível ao marido, desde levando bolos a palavras cruzadas.
Todo dia o senhor L.M.R. me recebia com um sorriso e todo dia eu tentava retribuir da melhor maneira, seja otimizando sua prescrição meramente a base de morfina e oxigênio em máscara , seja com uma boa conversa à beira do leito.
Quase que como uma bola de cristal, ele pareceu adivinhar tudo o que eu estava sentindo naquele dia.
“Minha jovem, aquiete seu coração, você é menina moça e é muito boa no que faz. Me faz lembrar dos jardins que cuidei: flor pequena e discreta, mas que quando desabrocha mostra sua plenitude e perfume. Vai com fé e no seu tempo, que seu sucesso é garantido.”
Seguiu-se então um momento de rubor e não pude disfarçar as lágrimas em meus olhos.
Quando achamos que o médico é o que ensinará algo ao paciente, o jogo acaba virando e nos dá uma grande lição de vida. Das mais puras e lindas de se ouvir.
A medicina de nada tem de exata. Ela é a verdadeira caixinha de surpresas da vida.
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