O sono interfere em muitos aspectos da qualidade de vida do ser humano. Noites de sono mal dormidas estão associadas a diversos eventos cardiovasculares e surgimento de doenças metabólicas. Baseado na relevância do tema, recentemente foi publicado um artigo que abordou os efeitos de medidas não farmacológicas do sono nos parâmetros glicêmicos de indivíduos com transtornos do sono.
A insuficiência do sono, seja ele um sono de má qualidade ou com início/duração inadequados, é conhecida por impactar negativamente o metabolismo glicêmico. Um sono ruim é capaz de aumentar a chance de desenvolvimento de Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) na população em geral, progressão para DM2 nos indivíduos com pré-diabetes e piora dos parâmetros glicêmicos naqueles com DM2 estabelecido.
As intervenções para uma melhor qualidade do sono incluem: terapias farmacológicas, técnicas de manipulação do sono (incluindo educação e higiene do sono), terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC) e /ou extensão do sono. Uma opção bem conhecida é a pressão positiva nas vias áreas (CPAP), sendo mais específica para os pacientes com síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS)
O objetivo da presente meta-análise foi aferir o impacto de medidas não farmacológicas do sono nos parâmetros glicêmicos dos pacientes com transtornos relacionados ao sono.
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Metodologia
Em base de dados eletrônicos, foram coletados estudos que continham indivíduos com idade > 18 anos e as seguintes características:
- estudos randomizados ou não, laboratoriais e de apenas um braço
- estudos com intervenções não farmacológicas do sono tais como: extensão do sono, higiene do sono ou TCC.
- estudos que mediram os níveis de glicose via: glicemia capilar, Hba1c, glicemia de jejum, medidas de dispositivos eletrônicos ou curva glicêmica no início dos estudos e no seguimento.
Os critérios de exclusão foram: estudos que não abordaram intervenção do sono, que abordaram indivíduos em uso de CPAP para SAOS, que usaram medidas farmacológicas para avaliação do sono, que não avaliaram os parâmetros glicêmicos e de pacientes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1).
As intervenções do sono foram categorizadas em: estudos de higiene do sono ou TCC e estudos como foco no início/duração do sono. Além disso, as populações estudas foram divididas em pacientes com e sem DM2.
Resultados
Dos 24 estudos analisados, 15 avaliaram higiene do sono/TCC e 9 avaliaram início/duração do sono.
A meta-análise de 12 estudos demonstrou redução de 0,27% da Hba1c. Nos pacientes com DM2, essa redução foi de 0,43%. Não foi observada mudanças na glicemia de jejum nos estudos analisados.
O estudo contou com algumas limitações tais como: heterogeneidade da população estudada, diferenças nas intervenções em tempo e período de seguimento e diferenças entre as populações estudadas no início dos estudos no que tange à idade, sexo, IMC e presença ou não de DM2. No entanto, apesar das limitações, todos os métodos analisados nos estudos permitiram que eles fossem válidos.
Conclusão e mensagem prática
A presente meta-análise demonstrou que medidas não farmacológicas de intervenção do sono foram capazes de melhorar o controle glicêmico de indivíduos com distúrbios do sono, principalmente na população com DM2.
Tal comprovação serve de alerta e inspiração para que a prevenção e tratamento do DM2 sejam abordados de uma maneira mais global dado a evidência de que medidas de estilo de vida são uma ferramenta para redução da incidência de doenças metabólicas tais como o DM2.
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