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Hematologia7 dezembro 2024

ASH 2024 - Painel com especialistas em leucemia linfocítica crônica

Painel de especialistas em leucemia linfocítica crônica: discussão de casos à luz do guideline da National Comprehensive Cancer Network

O Congresso da American Society of Hematology (ASH 2024) iniciou no último 06 de dezembro com as atividades pré Congresso. Iniciamos a cobertura participando de uma discussão de especialistas em manejo da Leucemia Linfóide Crônica baseados nos guidelines do National Comprehensive Cancer Network (NCCN).

A discussão foi mediada pelos palestrantes Brian Hill (Cleveland Clinic Foundation), Danielle Brander (Duke University) e Sameer Parikh (Mayo Clinic).

A conversa se iniciou com Dr. Hill comentando sobre alguns casos para discussão:

  • Um paciente de 74 anos hipertenso, diabético, DRC, que apresenta indicação de tratamento de uma LLC com mutação do TP53.
  • Ao fornecer as opções de tratamento e perguntar sobre a opinião da plateia, 67% da mesma afirmou que iniciaria o tratamento com uso de acalabrutinibe, o que foi comentado pelo próprio como uma boa opção, já que se sabe que a população com TP53 mutado particularmente se beneficia desta estratégia.
  • Apesar de entendermos que o ibtk pode ter melhor performance contra tp53, o uso de venetoclax de forma CONTÍNUA também é aprovado para essa população.

No próximo caso, ele trouxe um paciente com 68 anos previamente hígido, que faz uso de varfarina por tromboembolismo venoso de repetição. Neste caso, a LLC tem IGHV não mutada e FISH com deleção de 11q com TP53 selvagem.

Para este caso, 49% da plateia (a maioria), escolheu o tratamento com venetoclax e obinutuzumabe.

Os argumentos que favorecem o uso desta estratégia terapêutica são a já conhecida contraindicação ao uso de ibtk no paciente em uso de varfarina (o que pode ser feita caso o paciente estivesse em uso de um DOAC).

Na sequência, o Dr. Hill resumiu os argumentos a favor de cada opção terapêutica de primeira linha, baseados nas diretrizes do NCCN (iBTK covalentes, seja acalbrutinibe com ou sem obinutuzmabe, ou associação de venetoclax e obinutuzumabe).

Favorecem os ibtks:

  • Comodidade posológica
  • Estudos de fase III provando benefício frente a FCR e BR
  • Maior robustez de datas com outras segundas linhas, sendo ibtk a primeira

Favorecem venetoclax + obinutuzumabe:

  • Terapia finita
  • Contenção de custos no sentido de limitar toxicidades e idas ao hematologista
  • Ausência de efeitos adversos cardiovasculares conhecidos, tais como arritmias

Ao dissertar sobre tais opções, Dr. Hill citou uma série de estudos, e particularmente mostrou por qual motivo usamos Venetoclax com Obinutuzumabe, e por que a adição do ibrutinibe a essa duplinha não é tão interessante.

Para embasar seus argumentos, ele mostrou os resultados do estudo GAIA (CLL13).  Em termos de indução de DRM negativa, vimos que a COMBINAÇAO de venetoclax com obinutuzumab induz profundas DRM, mas ao adicionarmos o ibrutinib a essa combinação, não há ganho significativo de aprofundamento de DRM. Para comprovar que não é o venetoclax sozinho e sim a COMBINAÇAO com obinutuzumab que faz a diferença, ele mostrou que a terapia padrão com quimioterapia é praticamente igual ao venetoclax + rituximab em termos de indução de DRM. O que aconteceria se trocássemos o ibrutinib por acalabrutinibe: somente o estudo AMPLIFY pode nos dizer.. e teremos apresentação de seus resultados também neste ASH!

Finalmente, ele expõe um slide com uma comparação direta entre obinutuzumab e rituximab, onde defende que o obinutuzumab melhora sobrevida livre de progressão e global quando comparado ao clorambucil. (Eichhorst. Nejm. 2023; 388:1739. ;  Goede. EHA 2018. Abstract S151.)

O Dr. Hill explica que não há terapia inicial ideal, e que ela vai depender de diversos fatores. Ele resume os desfechos de sobrevida livre de progressão de cada esquema em uma tabela, que resumimos abaixo:

Resultados de estudos de primeira linha para LLC
EstudoSobrevida livre de progressão
E1912 (fase 3): Ibrutinib + rituximab78% em 5 anos
ELEVATE-TN : Acalabrutinibe monoterapia72% em 5 anos
ELEVATE-TN : Acalabrutinibe + obinutuzumabe84% em 5 anos
CLL-14: Venetoclax + obinutuzumabe63% em 5 anos
SEQUOIA: Zanubrutnibe monoterapia> 80% em 4 anos
  1. Shanafelt. Blood. 2022;140:112.
  2. Sharman. ASCO022. Abstr 7539.
  3. Al-sAWAF. Nature Commun,2023;14:2147.
  4. Tam. Lancet Oncol. 2022;23:1031.

A discussão sobre terapias de segunda linha foi conduzida pela Dra. Danielle Braner. Ela iniciou sua aula com três casos clínicos e os debateu com os demais palestrantes.

O primeiro caso foi de um paciente com LLC recaída após o uso de 6 ciclos de bR. O paciente tinha 68 anos, IGHV não mutado, del (13q). Ele explicou que neste caso poderia ser utilizado tanto ibtk quando esquema finito com venetoclax e anti-CD20. Quanto ao anti-CD20, ele ressaltou que o ideal seria utilizar obinutuzumabe – que já figura como uma das opções de segunda linha pelos guidelines do NCCN.

O segundo caso expos um caso de um paciente que apresentou fibrilação de alta resposta ventricular e internação após uso de ibrutinibe. Caso o paciente estivesse com uma resposta adequada, ele sequer voltaria algum tratamento. Porém, se houvesse uma nova indicação de tratamento, ele sugeriu trocar para venetoclax + obinutuzumabe, pois mesmo que o risco de fibrilação atrial seja baixo nos demais ibtk, ele ainda existe. Ele só insistiria em ibtk, especificamente pirtobrutinibe, se o paciente apresentasse mutações do BTK como C481S.

Na sequencia, foram comparados os principais estudos envolvendo a terapia de segunda linha para LLC, cujos resultados estão abaixo:

Resumo dos principais estudos envolvendo inibidores de BTK e venetoclax na LLC RR
iBTKEstudoBraços de tratamentoDuração da terapiaSobrevida livre de progressãoHazard ratioFollow-up em meses
AlacabrutinibeELEVATE-RRAcalabrutinibe vs ibrutinibeContínuaMediana: 38.4 vs 38.4 meses1.040.9
ASCENDAcalabrutinibe vs BR vs idelalisibe + RContínuaMediana: Nao alcançada vs 16.8 meses0.2846.5
IbrutinibeRESONATEIbrutinibe vs OfatumumabContínuaMediana 44,1 vs 8,1 meses0.14874
ZanubrutinibeALPINEZanubrutinbe vs ibrutinibeContínua65.8% vs 54.3% em 36 meses0.6736.3
Inibidor de BCL-2
VenetoclaxMURANOVenetoclax + R vs BRTerapia finita54.7 vs 17.0 meses0.2584

A sequencia proposta pelos especialistas, portanto, foi:

  • Paciente iniciou o tratamento com inibidor de BCL-2 + anti cd20
    • Na segunda linha: considerar reexposição ao esquema a depender do tempo sem tratamento, ou iniciar inibidor de btk covalente
    • Na terceira linha: considerar reexposição ao inibidor de bCL-2 e anti CD20 ou iniciar inibidor de btk não covalente
  • Paciente iniciou tratamento com inibidor de btk covalente
    • Na segunda linha: Trocar o esquema para inibidor de blc-2 + anti CD20 ou para ibtk não covalente
    • Na terceira linha: Reexpor ao inibidor de bcl-2 + anti CD20 se usado na segunda linha, ou expor pela primeira vez caso tenha-se optado pelo ibtk não covalente.
  • Da terceira linha em diante, o grupo concorda com a inclusão em estudos clínicos ou CAR-T.

Em relação ao retratamento com venetoclax, o grupo discutiu os seguintes aspectos:

  • Quando considerar re-tratamento com terapia a base de venetoclax?
    • A Dra. Braner expos sua opinião, já que os resultados do estudo ReVENG ainda não estão disponíveis: Entendendo que, na situação ideal, o tratamento com venetoclax + anti-CD20 deveria levar a uma sobrevida livre de progressão de 5 anos, aqueles pacientes que progridem em MENOS DE 2 ANOS do final da primeira linha com V + O provavelmente não terão boa resposta a uma próxima exposição, ainda mais considerando que terá que passar por todo o processo de escalonamento de dose do venetoclax e uso por 1 ano. Então, em sua opinião: reexpor após menos de 1 ano do fim do último uso de V + O: nunca. Menos de 2 anos: muito provavelmente não. A resposta definitiva para essa pergunta, só teremos após a divulgação dos resultados do estudo REVENG (NCT04895436): estudo que explora as respostas ao retratamento com venetoclax + obinutuzumabe naqueles pacientes que responderam inicialmente mas recaíram no futuro.

Para encerrar, Dr. Sameer Parikh expôs para onde estamos indo em termos de novas terapias para a LLC.

Das muitas opções exploradas, o palestrante mostrou com entusiasmo os resultados dos estudos EPCORE CLL-1 (uso de anticorpo biespecífico epcoritamabe), BGB-166 (degradador de BTK, cujos resultados adicionais serão apresentados também no Abstract 883 deste congresso, e CAR-T cell therapy.

O que a discussão deste painel de especialistas trouxe para nossa prática:

  • As palestras foram especialmente interessantes pois, no Brasil, dispomos das principais opções de primeira linha aprovadas e em rol da ANS!
  • A questão da reexposição ao venetoclax com obinutuzumabe foi bem discutida e naqueles pacientes em quem definitivamente não desejaríamos iniciar um iBTK (uso de varfarina, alto risco para fibrilação atrial, por exemplo), a reexposição parece ser segura, mas nossa decisão deve considerar o tempo transcorrido entre o fim do tratamento de primeira linha e a recaída. Naqueles pacientes jovens que desejam um tempo longo livres de tratamento, reexpor a uma terapia finita com segurança e eficácia pode ser a melhor escolha!

Autoria

Foto de Luiza Lapolla Perruso

Luiza Lapolla Perruso

Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2017, técnica formada em Biotecnologia pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) em 2009. Fez residência em Clínica Médica no Hospital das Clínicas da USP-SP, concluída em 2020, e onde também faz residência em Hematologia e Hemoterapia, concluída em 2022. Atualmente, trabalha como hematologista no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP-USP), médica assistente nos hospitais São Luiz Itaim e Vila Nova Star - Rede D'or, e Pesquisadora Clínica em Hematologia no Instituto D'or de Pesquisa e Ensino. Experiência prática em hematologia, oncohematologia, e experiência acadêmica como professora de hematologia nos cursos médicos Medway, Jaleko Acadêmicos, além estágios práticos em hematologia no Mount Sinai Hospital (NY) e Centro Médico da Universidade de Leiden (Leiden- Holanda).

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