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Hematologia10 dezembro 2024

ASH 2024: Teclistamabe de manutenção pós-transplante induz doença residual mínima

Confira detalhes sobre o estudo que mostrou a eficácia de 100% do medicamento.

Teclistamabe, um anticorpo biespecífico que atua contra BCMA e CD3, tem mostrado resultados promissores no tratamento do mieloma múltiplo recidivado/refratário (RRMM). O estudo pivotal de fase 1/2 MajesTEC-1 demonstrou taxa de resposta global de 63%, com 43% dos pacientes alcançando uma resposta completa (CR) ou melhor, e uma mediana de duração de resposta de 24 meses.[1]

As diretrizes do National Comprehensive Cancer Network (NCCN) recomendam o teclistamabe para pacientes com RRMM após quatro linhas anteriores de terapia, incluindo um inibidor de proteassoma, um fármaco imunomodulador e um anticorpo anti-CD38. No Brasil, ele é aprovado desde  23 de março de 2023 para mieloma múltiplo recidivado ou refratário, para pacientes que receberam pelo menos três terapias anteriores incluindo um IP, um IMID e um anticorpo monoclonal anti-CD38.

Os estudos mais recentes estão tentando trazer o teclistamabe para a primeira linha, e essa apresentação oral conduzida pela dra Elena Zamagni , da Universidade de Bologna, apresenta os resultados do teclistamabe na manutenção pós transplante autólogo de medula óssea.

O estudo MajesTEC-4/EMN30 foi um ensaio clínico de Fase 3, multicêntrico e randomizado, que avaliou o uso do teclistamabe (Tec) em combinação com lenalidomida (Len) e Tec isoladamente, comparados à Len sozinha, como terapia de manutenção após o transplante autólogo de células-tronco (ASCT) em pacientes com mieloma múltiplo recém-diagnosticado (NDMM).

Para serem incluídos, os pacientes deveriam ter diagnóstico novo de mieloma múltiplo e ter recebido 4-6 ciclos de terapia indução contendo necessariamente inibidor de proteassoma e/ou imunomodulador com ou sem um anti-CD38, um ou dois transplantes autólogos (este último podendo ser tandem) e estar em no mínimo resposta parcial.

Assim, foram incluídos em três coortes para o safety run-in:

Duas com teclistamabe + lenalidomida, com variação de dose do teclistamabe (coorte 1: 1,5mg/kg semanal C1-2 e depois 3mg/kg bissemanal do C3-C6, e então 3,0mg/kg mensal/ coorte 2: 1,5 mg/kg no e a partir do C2, 3,0mg/kg mensal), e uma com teclistamabe sozinho (coorte 3: 1,5mg/kg bissemanal no C1, e do C2 em diante 3,0mg/kg mensal)

A manutenção foi planejada para durar dois anos em todos os grupos, mas para aqueles com Tec + Len, se após 1 ano de uso eles se mantivessem em resposta completa, o teclistamabe poderia ser suspenso. 

Ao todo, 1500 pacientes foram randomizados e os desfechos primários foram satisfeitos (sobrevida livre de progressão e doença residual mínima negativa por imunofenotipagem com sensibilidade de 10-5).  

Destes: 

– ¼ apresentavam citogenética de alto risco 

– 21 – 46% tinham ISS III, com variação entre os grupos  

– A coorte 1 tinha o menor percentual de pacientes que receberam terapia tripla na indução (34% comparando a 59 e 66% das coortes 2 e 3 respectivamente), provavelmente pois foi a primeira coorte aberta, e incluiu pacientes um ano antes das outras duas, iniciando em 2022. 

Dados de segurança: 
– 93% dos pacientes da coorte 1 apresentaram neutropenia graus 3-4 comparados a 62,5% na coorte 2 e 46,7% na coorte 3, mas neutropenia febril em si só ocorreu em 9,4% dos pacientes da coorte 1, 9,4% da coorte 2  e em nenhum paciente da coorte 3. 

– A incidência cumulativa de infecções diminuiu significativamente da coorte 1 para a 2, indicando que talvez o momento inicial de teclistamabe semanal seja um pouco demais.  

– Síndrome de liberação de citocinas ocorreram em 50% dos pacientes, todos de graus 1-2, e nenhum evento de ICANS foi reportado. 

– Hipogamaglobulinemia ocorreu em todos os pacientes, e todos eles receberam profilaxia com reposição endovenosa mensal.  

Dados de eficácia: 
– Todos os pacientes, isso mesmo, 100% deles, alcançaram a doença residual mínima negativa em algum momento da manutenção  

– As taxas de resposta completa alcançada na manutenção foi máxima na coorte 1 (100% dos pacientes), seguida pela coorte 2 com 93,3% e 90% na coorte 3.  

Mensagens práticas

Teclistamabe pós transplante leva 100% dos pacientes a negativação de doença residual mínima, independente da associação a lenalidomida.

Contudo, quanto menores os intervalos entre o teclistamabe, principalmente se associado a lenalidomida, mais frequentes as neutropenias e eventos adversos 3-4.

A mensagem é: provavelmente, já que todos entrarão em DRM negativa, o melhor será deixar apenas teclistamabe 1,5mg/kg bissemanal no C1 e 3,0mg/kg mensal nos ciclos subsequentes, que é o regime proposto pela coorte 3.

Autoria

Foto de Luiza Lapolla Perruso

Luiza Lapolla Perruso

Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2017, técnica formada em Biotecnologia pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) em 2009. Fez residência em Clínica Médica no Hospital das Clínicas da USP-SP, concluída em 2020, e onde também faz residência em Hematologia e Hemoterapia, concluída em 2022. Atualmente, trabalha como hematologista no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP-USP), médica assistente nos hospitais São Luiz Itaim e Vila Nova Star - Rede D'or, e Pesquisadora Clínica em Hematologia no Instituto D'or de Pesquisa e Ensino. Experiência prática em hematologia, oncohematologia, e experiência acadêmica como professora de hematologia nos cursos médicos Medway, Jaleko Acadêmicos, além estágios práticos em hematologia no Mount Sinai Hospital (NY) e Centro Médico da Universidade de Leiden (Leiden- Holanda).

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Referências bibliográficas

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